Home voltou-se para seus companheiros. Seus olhos mostravam-se fixos. Caminhando de forma extasiada, saiu da sala. As quatro testemunhas não o seguiram, já que, de início, Home as advertira para que não saíssem de suas cadeiras. Qualquer movimento delas poderia quebrar o encanto. "E isso" - disse ele - "iria colocar-me em grave perigo."
Ouvindo atentamente, os homens seguiam o ruído dos passos de Home, cruzando a sala vizinha, e depois o som de uma janela sendo aberta.
Lindsay remexeu-se, inquieto, em sua cadeira. Voltou os olhos para Lord Adare e disse "Desta maneira . . ." Um gesto de Adare silenciou-o. "Qualquer interferência, agora, poderia ser mais perigosa do que qualquer coisa que ele pudesse fazer por si mesmo" — sussurrou ele. "Tenho absoluta fé em Home."
Lindsay parecia muito preocupado. Afinal, aquela era a sua casa. Se um hóspede caísse da janela, e morresse, seria mau para ele. Nesse momento, Lord Adare respirou com dificuldade. Lindsay e os dois oficiais se voltaram e viram Adare com uma expressão estupefata, apontando para a janela da sala em que estavam, com um dedo trêmulo. A janela estava fechada, mas através dela viram Home, que parecia flutuar no espaço, do lado de fora da janela. O chão ficava três andares abaixo. Enquanto os outros se conservavam sentados, Home abriu a janela e entrou no aposento, atravessando-o ainda em transe, e tomando sua posição anterior na cadeira.
Subitamente, Home riu de mansinho. O Capitão Wynne perguntou de que estava rindo, e Home respondeu numa voz curiosa, sem timbre, diferente da sua voz normal: "Estou pensando no espanto de um policial que tivesse olhado para cima e me visse flutuando entre duas janelas".
Era óbvio que ele ainda estava em transe. Parecia calmo, mas, ao sair daquele estado, alguns instantes depois, mostrou-se muitíssimo agitado.
Tremia ligeiramente, e não fez referência à sua estranha experiência, mas murmurou algo sobre se sentir em perigo.
Descrevendo o acontecido para seu pai, Lord Adare escreveu:
'Home conservou-se muito nervoso durante pequeno espaço de tempo. Depois, aos poucos, aquietou-se... Tivemos, então, uma série de curiosas manifestações. Charlie (Wynne) viu línguas, ou Jatos de fogo, saindo da cabeça de Home. Depois, todos nós ouvimos, distintamente, por assim dizer, um pássaro voando pela sala, assobiando e chilreando. Mas, a não ser Lindsay, que disse ter visto uma forma indistinta, semelhante á de um pássaro, nós nada vimos. Houve, então, o som de uma grande ventania atravessando a sala. Aquele som precepitado e soluçante foi a coisa mais sobrenatural que jamais ouvi'.
Depois da sessão, a pedido de Home, os quatro homens inspecionaram as janelas, a fim de certificarem-se de que não havia arames ou molduras colocados do lado de fora, entre as janelas, e que pudessem ajudá-lo. Nada encontraram.
Mais tarde, Wynne e Adare discutiram o estranho acontecimento em seus pormenores. Puseram de lado, inteiramente, a possibilidade de fraude. Pois, como relembrou Adare, Home jamais tinha estado na casa de Lindsay antes daquela noite. Ali chegara em companhia de Adare, e em nenhum instante saiu da presença desse seu amigo. Era-lhe impossível, portanto, ter colocado qualquer auxílio mecânico na sala, ou do lado de fora das janelas. Não podia ter empregado um cúmplice, porque ninguém, a não ser Lindsay, tinha conhecimento de qual seria a sala que iriam ocupar. Isso se fizera a pedido de Home.
O fato que relatamos passou-se em 1868. Em 1870, o Conde de Dunraven, pai de Lord Adare, mandou imprimir a carta de seu filho num livro que continha outras cartas sobre os extraordinários feitos de Home. Anos mais tarde, Adare disse que era muito jovem quando escreveu aquelas cartas. Contudo, acrescentou ele, os anos passados não modificaram a idéia que fazia de Home. Sentia que aquele escocês tinha, realmente, contacto com o oculto.
Em 1868 Adare era um esportista jovem e rico, profundamente interessado no sobrenatural. Foi sugerido que os quatro jovens estiveram inteiramente expostos à sugestão, e, também, como acontecia aos mais afoitos da época, estariam, possivelmente, um tanto embriagados. Não há prova de tal coisa. Entretanto, se alguém quiser ignorar o testemunho de Adare, há muitas outras pessoas que reafirmam os dons aparentemente sobrenaturais de Home.
(...)
É verdade que qualquer tipo de truque pode ser produzido no palco de um mágico. No Teatro Egípcio, em Londres, John Nevil Maskelyne flutuou sobre as cabeças dos que estavam na platéia. Maskelyne usou um boneco cuidadosamente feito, cheio de gás hidrogênico. O rosto era máscara de cera com toda a aparência de vida. Consta que a cabeça foi feita para Maskelyne pelos maravilhosos técnicos que trabalhavam para o famoso museu de cera de Madame Tussaud, em Londres.
Aquilo foi usado como exemplo de como Home poderia ter realizado suas sessões de flutuação. Sir William Crookes destruiu essa teoria. Fez sentir que Home não trabalhava num palco distante, afastado do seu auditório, e sim em salas de casas - muitas das quais jamais havia visitado antes. Ser-lhe-ia impossível introduzir nestas salas bonecos recheados de gás. E ainda mais impossível seria usar balões de gás para erguê-los numa sala comum de uma casa. Um balão de gás, grande o bastante para erguer um homem de 70 quilos não poderia estar escondido.
Então, como é que Home flutuava? Seu segredo foi com ele para a sepultura. Entretanto, há um método que foi usado por alguns médiuns fraudulentos. Um desmascaramento de médiuns, no século dezenove, mostra uma xilografia que revela o truque da operação, que só pode ser no escuro. O médium começa falando (isso Home às vezes fez):
"Estou me levantando no ar! Estou a 30 centímetros do chão! Estou me levantando mais! Agora estou flutuando horizontalmente!"
Ninguém pode ver nada. Tem apenas a palavra do feiticeiro. Então, e subitamente, os presentes recebem a prova! O homem que flutua move-se lentamente em direção da audiência. Os demais podem ouvir sua voz através da sala. O médium convida o homem do qual se aproxima a esticar o braço e tocar seus pés. O homem faz isso e toca os sapatos voltados para cima do médium, que está a cerca de um metro e meio acima do chão. O homem, naturalmente, exclama, é ouvido pelos outros, e diz que o médium está flutuando no ar, pois tocou no homem flutuante.
Considere-se a declaração do advogado James Wason: "Home declarou que estava sendo levantado no ar. Caminhei com ele por uns cinco ou seis passos, enquanto flutuava sobre mim, no ar. Só larguei de sua mão quando tropecei num banco".
A sala estava em total escuridão, mas Wason diz que havia dois raios de luz que passavam por algumas gretas da porta, e afirma que viu o corpo de Home passar por esses raios. Contudo, toda essa história se parece muito com a do médium denunciado, que colocava os sapatos nas mãos e convidava os presentes a tocá-los, no escuro.
A história de como Home flutuou para fora da janela, na casa de Lord Lindsay, voltando por outra janela, é muito mais difícil de explicar. As janelas estavam no terceiro andar da casa. Houdini, em Londres, no ano de 1922, afirmou que podia realizar truque igual. Os espíritas declararam que não se satisfariam com um trabalho de palco. Seria necessário que Houdini realizasse o ato de levitação sob as exatas condições e no exato local em que Home o realizara.
É preciso lembrar que Home jamais tinha estado antes na casa de Lord Lindsay. Até entrar na sala ele não sabia qual dos aposentos da casa Lindsay escolheria para a sessão. Com frequência, Home era revistado antes da exibição, a fim de provar que não tinha maquinismos escondidos no corpo.
A exibição de Houdini não se realizou. O grande mágico explicou que houvera certo problema com seu assistente, mas prometeu fazer a exibição quando de sua próxima visita a Londres. Nunca a fez.
Naturalmente, os espíritas sorriram diante do recuo de Houdini. Ele confessara precisar de um assistente. Home jamais tivera esse auxiliar, e jamais revelara seus segredos, nem mesmo às suas esposas. Se tivesse um assistente secreto seria impossível manter esse segredo oculto. Seria ainda mais impossível levá-lo em sua companhia para os círculos reais tão exclusivos. Sugeriu-se, também, que ele subornava os criados, mas em algumas de suas sessões mais espetaculares jamais deixou a presença de testemunhas, desde o momento de sua chegada até a sessão.
Home começara sua carreira espírita quando era adolescente, como produtor de pancadas nas mesas e clarividente, e, que se saiba, não teve contacto com nenhum outro médium. Aprendeu sozinho a questão das batidas produzidas pelos espíritos. Mas em 1852 - quando Daniel tinha dezenove anos — foi para Massachusetts e conheceu Henry Gordon, famoso médium. Home disse, apenas, que conhecera Gordon e fora convidado por ele para assistir a uma sessão na qual quase nada acontecera. Insinuou, então, que deixara Gordon e fora visitar a família de Rufus Elmer. Entretanto, Emma Hardinge, a bombástica espírita que escreveu "O Moderno Espiritismo Americano, conheceu bem Gordon, e dá a impressão de que Home trabalhou com Gordon por muito mais tempo do que disse. Assim, Gordon bem poderia ter sido o mestre de Home. Ela declara, positivamente, que naquela ocasião Home e Gordon estavam praticando as manifestações de flutuação do corpo:
Em Springfield e Boston, Massachusetts, D. D. Home — mais tarde famoso nas cortes européias por seus extraordinários dons mediúnicos — Henry C. Gordon, George Redman, e Rollin Square, estavam todos se desenvolvendo para manifestações físicas das mais maravilhosas. Esses jovens eram frequentemente erguidos no ar e flutuavam a vários centímetros do chão, na presença de centenas de testemunhas.
A senhorita Hardinge também cita uma história do Express de Nova Iorque, que disse: "O Sr. Henry Gordon, famoso médium para manifestações espíritas, estando num círculo desta cidade ... foi repetidamente levantado de sua cadeira e levado através do aposento, sem que qualquer mão visível tocasse nele ..."
Gordon estava fazendo essas levitações não só quando Home o visitou, mas já as fazia desde dois anos antes.
Home foi constantemente acusado de fraude, e muitas explicações foram dadas durante sua existência quanto à forma pela qual as "manifestações" eram realizadas. Ele anotou algumas livros:
'Alguns exemplos da forma pela qual se diz que os fenômenos são produzidos mostram-se suficientemente divertidos para que mereçam ser contados. Uma idéia muito popular em Paris era a de que eu levava no bolso um macaco ensinado para me dar assistência.
Outra idéia era de que minhas pernas são formadas de tal maneira que podem alongar-se, e que meus pés são iguais aos de um babuíno. Muitas pessoas pensam que quando vou a uma casa estranha minhas mesas têm de ser enviadas antes para lá, e que . . . estão sempre vastamente cobertas com toalhas. E que levo comigo mãos e braços de cera que são mostrados na ocasião apropriada.
Alguns supõem que eu magnetize ou biologise (hipnotize) minha audiência, e que ela apenas imagine que vê o que vê. Alguns pensam que levo comigo um par de pinças-tesouras e uma lanterna mágica. Outros declararam que quando eu digo que me estou erguendo no ar isso não passa de um balão de gás com o feitio de um homem. Ainda há os que dizem que a levitação é feita com uma lanterna mágica, enquanto médicos afirmam que eu administro um dedal de clorofórmio a cada um dos presentes...
Alguns têm crença espírita bastante para dizer que estou mancomunado com o diabo. Outros acham que evoco os espíritos através de fórmulas de encantamento...'
Podemos dizer aqui que embora algumas pessoas ignorantes, de fato, acussassem Home de praticar a magia negra, os que praticavam essa forma de arte oculta não aceitavam Home como um deles. Naquela época a magia negra tinha muitos seguidores, tanto em Londres como em Paris. O motivo da não aceitação de Home estava no fato da magia negra tratar com o mal, sendo seus espíritos diabólicos e malignos, forçados a aparecer através do poder das invocações e encantamentos dos magos negros e de seus rituais. Os espíritos do espiritismo, ao contrário, são benignos. Moram, segundo os espíritas, em região feliz, e se comunicam com médiuns que se harmonizam com seu mundo porque pensam naqueles que deixaram na terra. Não são temidos como os horripilantes e demoníacos espíritos da magia negra.
(...)
Já contamos como Houdini prometeu realizar essa proeza sob as condições exatas impostas a Home. Cancelou a demonstração quando seu assistente adoeceu. Disso se deduz que o assistente, provavelmente, faria descer do teto uma corda ou uma plataforma. Isso, por si só, teria violado as condições. Home jamais teve assistente, receoso de expor seus métodos.
Então, como flutuou de uma janela para a outra, a três andares acima do solo? Só Home conhecia o segredo, e levou-o para a sepultura. Contudo, se eu tivesse de realizar aquela proeza e não dispusesse de plataforma externa, eis como tentaria agir:
Aquela era uma reunião só de homens e o vinho corria livremente. Depois de uma sessão que colocou seu auditório no estado de espírito apropriado, Home fez saber que ia tentar algo diferente, nada usual, e perigoso. Fez com que os presentes olhassem para a janela da sua sala, enquanto tomava uma cadeira distante deles e entrava em transe. Isso aconteceu, sabemos.
Mantendo os presentes de frente para a janela, a mesa da sessão, com a sua luz de vela, ficou às costas dos homens. Home levantou-se de sua cadeira, ainda em transe, e foi para a sala vizinha, deixando a porta aberta. Não era possível vê-lo no escuro, mas podiam ouvir sua voz dizendo-lhes que ia sair pela janela. Podia bem se ter debruçado à janela para que sua voz parecesse vir do lado de fora.
O que se segue é uma hipótese. Enquanto a atenção dos presentes estava presa à janela que tinha à frente, Home poderia ter deslizado rapidamente de volta à primeira sala. Eles não o teriam visto. Podia, então, ficar de pé ao lado da luz, de forma que ela o iluminasse diretamente. Isso levaria o seu reflexo a aparecer na vidraça da janela. Há uma peculiaridade óptica nos espelhos: aquilo que refletem parece estar tão distante a trás do cristal quanto os objetos refletidos estão em frente do cristal. Assim, o reflexo de Home, no vidro da janela pareceu estar a muitos centímetros fora, no espaço. Lord Adare disse, mais tarde, que vira Home fora da sua janela.
Você pode conseguir esse efeito em sua própria casa, à noite. Fique de pé diante de uma janela grande, com as luzes da sala iluminando seu corpo. Se lá fora tudo está escuro, verá uma imagem espectral de si mesmo, de pé, aparentemente, tão longe do outro lado do vidro quanto você estiver deste lado dele.
Esse efeito foi usado num espetáculo, em Londres, no fim da década de 70 do século dezenove, e conhecido como o Fantasma de Pepper. O ator podia bater-se em duelo com um fantasma que o auditório via. Aquilo causou sensação.
Com a imagem aparecendo do outro lado da janela, Home precisou, apenas desviar a atenção dos presentes da janela e mover-se para a frente dela, tornando a chamar a atenção deles batendo, para fechar a janela, parcialmente aberta. A ilusão podia ser completa.
Parece improvável que ele se pudesse mover pela sala sem ser visto, e só podemos dizer que isso acontece no palco dos mágicos todo o tempo. Tudo depende de uma hábil forma de desviar a atenção. E se o vinho corria tão livremente como na maioria das reuniões de homens do período vitoriano, os cavalheiros, seja como for, não deviam estar enxergando muito claramente.
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