NDE e a Mente Auto-Consciente

1 comentários

Experiências de Quase Morte e a Mente Auto-Consciente Independente

Robert G. Mays, B.Sc., e Suzanne B. Mays

Chapel Hill, NC

Traduzido por Francisco Mozart Rolim e Vitor Moura Visoni

Resumo: A fase fora do corpo da experiência de quase-morte (NDE), onde a sede da consciência não mais está no corpo, provê evidência de que nossa auto-consciência pode existir independente do cérebro. O fenômeno da NDE durante a parada cardíaca demonstra uma continuidade da consciência durante períodos de isoeletricidade cerebral global (EEG plano) e sugere fortemente que a consciência pode continuar sem qualquer função elétrica cerebral. O fenômeno da percepção verídica durante a experiência fora-do-corpo (OBE) da NDE, o qual poderia ter ocorrido somente se a consciência tivesse operado de uma posição e perspectiva visual distante do corpo, fortemente sugere que nossa consciência pode se separar e operar independentemente do corpo. Comparando a NDE/OBE com outras formas de OBE, tais como OBEs espontâneas ou OBEs induzidas por drogas, a mais impactante diferença é que a NDE/OBE consistentemente inclui supostas percepções verídicas onde essas estão geralmente ausentes em outros tipos de OBE. As diferenças fenomenológicas entre outros tipos de OBE e a NDE/OBE sugerem que a mesma pessoa existe fora do corpo durante a NDE, libertada dos limites do corpo e existe dentro do corpo tanto antes quanto depois da NDE. Estes fenômenos tomados juntos fortemente sugerem que nossa consciência é uma entidade interna e externa por si mesma, chamada de mente auto-consciente independente, que ordinariamente opera dentro do corpo mas que por vezes pode se separar e operar independentemente dele na NDE. Se esta visão estiver correta, deveria haver numerosos fenômenos neurológicos que sugerem que a mente auto-consciente é uma realidade, tal qual na consciência ordinária.

PALAVRAS-CHAVE: experiência de quase morte, experiência fora-do-corpo, fenomenologia, problema mente-corpo, mente auto-consciente.

Na experiência de quase-morte (NDE), a sede da auto-consciência do experimentador muda do local normal dentro do corpo para fora do corpo. O experienciador freqüentemente encontra a si mesmo pairando vários pés sobre seu corpo físico, observando os esforços para revivê-lo. Esta mudança de consciência para fora do corpo é uma característica primária de muitas NDEs. A NDE começa tipicamente com a transição para fora do corpo, seguida de experiências imediatas no ambiente físico e termina com um retorno ao corpo. Enquanto fora do corpo, o experienciador retém as faculdades da percepção, pensamento, volição, memória, sentimentos e consciência, tal qual como uma auto-consciência, ou seja, aproximadamente todas as faculdades da experiência consciente ordinária. Em alguns casos, a NDE revelou-se ter ocorrido quando o corpo e o cérebro estavam clinicamente mortos, como na parada cardíaca, isto é, com o EEG reto, sem pulso ou respiração e ausência de reflexos pupilares e maxilares (van Lommel, van Wees, Meyers, and Elfferich, 2001). Pim van Lommel e colegas estabeleceram que pacientes com parada cardíaca estavam clinicamente mortos mas ainda tinham ricas experiências cognitivas durante o período de completa perda de atividade cortical e do tronco cerebral, incluindo tendo percepções verídicas de seus ambientes físicos imediatos que foram depois verificados.

A operação da auto-consciência independente do funcionamento do cérebro sugere que a consciência opera de uma forma particular enquanto nós estamos em nosso estado de consciência ordinária no corpo. Na verdade, se nossa auto-consciência pode se separar do nosso corpo e operar independentemente dele por um tempo, embora sob as circunstâncias notáveis da NDE, a auto-consciência muito provavelmente opera como uma entidade independente bem como enquanto estamos no corpo, embora esteja intimamente ligada com o cérebro e o corpo.

Assim, os fenômenos associados com o componente experiência fora-de-corpo (OBE) da NDE, onde o experienciador sente-se separado do corpo, mas ainda tem experiências verídicas do ambiente físico ordinário, pode nos dar indicações de quais aspectos da consciência são, de fato, independentes do cérebro. Por outro lado, os fenômenos da consciência que são associados com a atividade fisiológica do cérebro podem nos dar indicações de como nossa consciência opera quando unida com o cérebro.

O enigma de consciência, portanto, pode ser desvendado ou decodificado estudando a fenomenologia destes dois aspectos da experiência consciente, a OBE associada com NDEs e o correlato neural da consciência. O presente texto examina o primeiro desses aspectos fenomenologicamente, focalizando em aspectos relevantes da NDE/OBE. Outros aspectos das NDEs, além da fase de OBE, podem fornecer reflexões adicionais, mas não são considerados no presente texto. Um artigo subseqüente (Mays e Mays, 2007) se dirige a vários fenômenos neurológicos à luz da visão presente.

Fenomenologia

O termo fenomenologia descreve tanto um método de estudo de fenômenos como a descrição e classificação dos fenômenos desse estudo. Há vários métodos fenomenológicos diferentes usados em ciência cognitiva (por exemplo, Blackmore, 2006, p. 265), mas o nosso é baseado no descrito por Arthur Zajonc (1999), a saber, um método de inquérito baseado nas três etapas de investigação proposto por J. W. von Goethe: (1) “fenômenos empíricos” que são as observações ordinárias que um observador atento faria, (2) “fenômenos científicos” que são examinados por experimentação sistemática, e (3) “fenômenos puros ou arquetípicos” que permitem uma intuição direta ou encontro perceptivo com as leis de natureza. O último passo não ocorre por abstração e construção de modelos, mas sim refinando-se os fenômenos para se chegar na essência ou âmago dos fenômenos.

A forma de fenomenologia derivada da abordagem de Goethe é semelhante à fenomenologia de Edmund Husserl, mas vai além disso, pois admite mais do que relatos de consciência em primeira pessoa. É também muito semelhante à neurofenomenologia de Francisco Varela (1996) que estuda fenômenos em seus aspectos experienciais de primeira pessoa, junto com os aspectos associados neurológicos. No entanto, difere de neurofenomenologia em grau, por tratar os aspectos de primeira pessoa primariamente, com relatórios experimentais neurológicos como suporte.

Em suas investigações, Goethe era muito relutante em prosseguir imediatamente para definir as causas de padrões observacionais em termos de mecanismos subjacentes, mas o permitia quando era sensato fazer assim. É possível permanecer em cada etapa de explicação dentro do fenômeno e ainda crescer ao nível de teoria (Zajonc, 1999). Para Goethe, os próprios fatos fenomenais são a teoria: “Não procure por nada atrás dos fenômenos; eles próprios são a teoria”. “Deixe que os fatos falem por sua teoria”. (Bortoft, 1996, p. 71)

Assim, para explicar a consciência, precisamos procurar primeiro na própria consciência e cada maneira na qual a consciência se manifesta como fenômeno, incluindo, naturalmente, tanto experiências de quase-morte como resultados experimentais neurológicos. As experiências de primeira-pessoa de sujeitos experimentais ou pacientes são essenciais para o entendimento dos relacionamentos entre a consciência e os fenômenos neurológicos e levarão a uma teoria compreensiva de consciência.

A Experiência de Quase-Morte

A experiência de quase-morte tipicamente ocorre quando uma pessoa tem uma crise médica que traz a pessoa perto da morte ou quando uma pessoa experimenta perigo intenso físico ou emotivo (Greyson, 2000a). Raymond Moody (1975) descreveu 15 elementos comuns que se repetiram em relatórios de NDEs. Estes elementos incluem inefabilidade, ouvir alguém pronunciar “morto”, sentimentos de paz, experiências auditórias incomuns, tais como bipes ou zumbidos, atravessar uma região escura ou túnel, sentir-se separado do corpo físico – normalmente com percepção do ambiente físico, incluindo ver o próprio corpo, encontrar parentes ou amigos falecidos, um “ser de luz”, experimentar uma revisão panorâmica dos acontecimentos da vida, o retorno ao corpo e contar a outros sobre a experiência, inclusive corroborando acontecimentos testemunhados enquanto fora-do-corpo. Moody informou que muitas experiências individuais de quase-morte incluíram 8 ou mais destes elementos comuns, mas era raro que quaisquer duas experiências tivessem exatamente os mesmos elementos e só algumas experiências incluíam até 12 dos 15 elementos.

NDEs são informadas ocorrer durante um vasto leque de condições médicas ameaçadores da vida, inclusive parada cardíaca em infarto do miocárdio, choque anafilático, hemorragia cerebral e assim por diante, em tentativas de suicídio, ferimentos severos devido a acidentes e quedas, e em afogamentos. NDEs também são relatadas com doenças sérias que não são imediatamente ameaçadoras à vida e com as pessoas que parecem estar ameaçadas de uma injúria severa inevitável ou morte, mas que não estão necessariamente feridas. As últimas experiências, chamadas às vezes de NDEs antecipatórias, podem ocorrer em um acidente de trânsito ou em quedas de montanhas, onde a injúria é evitada no último instante.

Certas características das NDEs mais comumente são informadas em indivíduos que chegaram mais próximos à morte, como medido por registros médicos (Owens, Cook e Stevenson, 1990). Tais características incluem a experiência de uma luz forte (por exemplo, no fim de um túnel ou emanando de um ser de luz) e funções cognitivas aumentadas (tal como clareza aumentada de pensamento ou clareza perceptiva ou controle aumentado de cognição).

NDEs são informadas por aproximadamente 30% das pessoas que chegam perto de morte (cf. Greyson, 2000a) ou aproximadamente 4 – 5% da população total (Gallup e Proctor, 1982). Estudos prospectivos, no entanto, de pacientes cardíacos que com êxito foram reanimados depois da parada cardíaca indicam que a incidência de NDEs neste subgrupo é muita mais baixa, variando de 6% a 18% (van Lommel, van Wees, Meyers, e Elfferich, 2001; Parnia, Waller, Yeates, e Fenwick, 2001; Schwaninger, Eisenberg, Schechtman, e Weiss, 2002; Greyson, 2003). A combinação dos dados destes estudos prospectivos resulta num índice total de aproximadamente 15% para pacientes de parada cardíaca. Uma explicação da diferença é que essa reanimação cardiopulmonar prolongada pode induzir perda de memória que significativamente pode reduzir o número de NDEs informadas (Dougherty, 1994; Sauvé, Walker, Massa, Winkle, e Scheinman, 1996; van Lommel, van Wees, Meyers, e Elfferich, 2001, p. 2042).

Várias hipóteses explanatórias tanto fisiológicas quanto psicológicas foram propostas para explicar as NDEs (Greyson, 1998). Uma hipótese psicológica é que a NDE é uma forma de despersonalização, isto é, um sentimento de separação tanto do mundo, como da própria identidade, ou sentindo que a vida é irreal ou similar ao um sonho. S despersonalização é tipicamente desagradável, com sentimentos de ansiedade, pânico e vazio, não incluem um sentido de estar “fora do corpo” e ocorre mais freqüentemente em adultos jovens e mais freqüentemente em mulheres. Em contraste, os elementos da NDE são tipicamente agradáveis com sentimentos de paz, calma, alegria e amor e o NDEr continua a ter um sentido claro de identidade pessoal durante a experiência. NDEs tipicamente envolvem clareza de pensamento e alerta aumentado, tem um componente fora-de-corpo e não possuem nenhuma faixa etária característica e uma distribuição igual de gênero.

Outra hipótese psicológica é que a NDE é uma forma de dissociação, isto é, algum grau de separação de pensamentos, emoções, sensações ou memórias de uma consciência ordinária. Respostas dissociativas não-patológicas estão presentes até certo ponto na maioria de pessoas, tal como devaneios, absorção ao executar uma tarefa ou absorção ao assistir televisão, ao passo que sintomas patológicos da dissociação, tal como ter nenhuma memória de um acontecimento significativo de vida ou sentindo que aquele corpo não é o próprio, pode resultar de trauma severo psicológico ou físico tal como estupro, abuso sexual ou sendo refém. Muitas NDEs incluem características que são coerentes com a dissociação tal como a desconexão do corpo numa OBE e elementos da NDE podem ser desencadeados pela ameaça percebida de dano físico, mesmo quando nenhum dano físico realmente ocorre. Um estudo de NDErs usando a Escala de Experiências de Dissociativas (Greyson, 2000b) mostrou que as pessoas reportando NDEs informaram mais sintomas dissociativos que o grupo de comparação e que a “profundidade” da NDE foi positivamente correspondida com sintomas dissociativos. No entanto, o nível de sintomas exibidos por NDErs era consideravelmente mais baixo que o nível associado com desordens patológicas dissociativas. NDErs não mostram o nível de angústia ou dano que pacientes com desordens dissociativas fazem. Assim, o NDEr responde a sua experiência com um nível não-patológico de resposta dissociativa ao stress.

As hipóteses explanatórias fisiológicas para a NDE incluem hipoxia (oxigênio insuficiente), hipercarbia (nível de dióxido de carbono excessivo), a liberação de endorfinas ou vários neurotransmissores, atividade elétrica neural no lóbulo temporal direito ou do sistema límbico, a presença de várias drogas ou equivalentes endógenos até agora não identificados, e assim por diante. Em geral, estas explicações sofrem do fato que estas condições não são presentes em todos casos de NDE. Nenhuma teoria fisiológica foi ainda proposta para explicar satisfatoriamente todos os elementos comuns de NDEs (Greyson, 1998). Pode ser possível que uma resposta fisiológica sirva para desencadear a NDE e também pode ser possível que um modelo multifacetado explanatório fisiológico possa explicar todos os aspectos da NDE (Blackmore, 1993). No entanto, tais explicações necessitariam incluir as NDEs antecipatórias, onde a NDE claramente é desencadeado por uma ameaça percebida de injúria séria ou morte, mas nenhuma ferida física de fato ocorreu.

O componente fora-do-corpo da NDE

O foco da presente artigo é o componente OBE da NDE. A fenomenologia da OBE, ocorrendo durante a NDE, deveria ajudar no entendimento da natureza da consciência, uma vez que a consciência do NDEr aparenta se separar do corpo físico no início da OBE e depois se reunir com o corpo. Mais ainda, durante o componente OBE, percepções do ambiente físico do NDEr são feitas tais que aparentam ser verídicas e suas veracidades podem potencialmente ser corroboradas.

A proporção de NDErs que relatam uma OBE como parte de suas experiências tem sido variavelmente reportada como 75% (Greyson e Stevenson, 1980), 83% (Greyson, 1983) e 100% (Sabom, 1982). A diferença entre esses diferentes estudos pode ser devida a definição de OBE. A OBE é definida como a experiência da consciência de alguém ser deslocada do corpo físico. No índice de peso da experiência central (WCEI) para NDE, Kenneth Ring (1980) marcava uma pontuação de 2 se o indivíduo descrevesse uma “clara experiência fora-do-corpo” e 1 se o indivíduo tivesse a sensação de separação corporal sem isto. Em sua escala NDE, Bruce Greyson (1983) marcava 2 se o indivíduo claramente deixasse o corpo e existisse fora dele e 1 se o indivíduo perdesse consciência do corpo.

Um impactante exemplo de clara experiência de separação do corpo é o caso de George Ritchie (Ritchie e Sherrill, 1978, p. 36; Ritchie, 1998, p. 51), que inclui uma muito elaborada NDE e uma incomum OBE com aparentes percepções verídicas. O soldado Rirchie, 20 anos, um recruta recente no Exército, morreu de pneumonia aguda dupla no hospital em Camp Barkeley, localizado próximo a Abilene, Texas, em torno das 3:00 do dia 22 de dezembro de 1943. Richie havia estado inconsciente, mas acordou e encontrou a si mesmo sentando em sua cama com outra pessoa. Ele lembrou sua urgente necessidade de ir para Richmond para o início de seu treinamento médico e percebeu que tinha perdido o trem. Richie deixou o hospital, passando diretamente através de suas pesadas portas de metal e viu-se voando rapidamente, cerca de 500 pés, sobre a fria paisagem. A noite era clara e fresca, mas ele não sentia frio. Ele viu que estava viajando para leste da posição da Estrela Polar a sua esquerda no céu noturno.

Richie chegou a um largo rio com uma ponte comprida e alta e uma cidade relativamente grande no aterro distante. Ele sentiu que deveria parar de seguir as direções para Reymond e “pousou” em uma lanchonete 24 horas, com piso alvirrubro, numa esquina, com um sinal em neon azul escrito “CAFÉ” acima da porta e um sinal “Pabst Blue Riboonn Beer” numa grande janela frontal à direita. Na tentativa de falar com um transeunte, Richie percebeu que os outros não podiam vê-lo. Quando ele se inclinou para pegar a linha de telefone de uma cabine telefônica, sua mão passou por ela e ele percebeu que de alguma forma ele havia se separado de seu corpo e agora precisava voltar para ele. Ritchie rapidamente retornou ao hospital, mas teve dificuldade em achar seu corpo entre os 2300 leitos do hospital. Ele finalmente reconheceu seu corpo pelo anel em sua mão. Um lençol havia sido posto sobre sua cabeça e ele percebeu que havia morrido. Ainda, ele estava acordado, pensando e experimentando, só que sem um corpo. Freneticamente Richie pegou o lençol para tirá-lo, mas agarrou apenas o ar. Ritchie então encontrou um Ser de Luz que ele compreendeu ser Cristo. Ele teve uma revisão de vida e experiências extensas posteriores em outras esferas. Richie finalmente retornou ao seu corpo sob o lençol, com sua garganta em chamas e seu peito dolorido. Um assistente do hospital observou sua mão e persuadiu o médico a injetar adrenalina diretamente em sua musculatura cardíaca, um procedimento médico incomum naquela época. Ritchie reviveu e finalmente se recuperou.

Dez meses depois, após ser reprovado no treinamento médico, Ritchie estava dirigindo com três amigos do Exército de volta à Camp Barkeley para concluir o treinamento básico. Eles dirigiram ao sul de Cincinnati, seguindo o Rio Mississipi e vieram à Vicksburg, onde permaneceram durante a noite. Na manhã seguinte, Richie encostou o carro em frente à lanchonete. Ele reconheceu o sinal em neon (ausente no momento), o sinal Pabst na janela e a linha telefônica, exatamente como haviam aparecido antes. A lanchonete estava a 524 milhas diretamente ao leste da porta do hospital em Camp Barkeley.

Assim, a história de George Ritchie é única pela clareza e duração do componente OBE e por suas percepções verídicas evidentes da realidade física. Esses aspectos provavelmente resultaram de circunstância incomum de ter um forte desejo (não perder o início de seu treinamento médico) no instante de sua “morte”. Esse desejo o propeliu do hospital para uma estranha cidade muitas milhas distante, quando muitas experiências OBEs/NDEs permanecem geralmente na vizinhança do corpo do NDEr.

A fenomenologia da experiência de quase-morte tem sido documentada por um grupo de pesquisadores (p.ex., Moody, 1975; Moody e Perry, 1988; Greyson e Stevenson, 1980; Sabom, 1982; Valarino, 1997; Ring e Cooper, 1999). Se nós focarmos especificamente no componente OBE destas descrições fenomenológicas e dos relatórios gerais de NDE/OBEs na literatura, podemos desenvolver uma descrição mais elaborada da NDE que enfatiza o componente OBE. Assim, os elementos típicos do cenário da NDE que inclui uma OBE são listados aqui. Vários desses elementos não se apresentariam numa NDE que não incluísse um componente OBE.

1 – A pessoa experimenta um trauma físico tal como um acidente ou uma doença súbita tal como uma parada cardíaca.
2 – A pessoa tem sentimentos de paz e ausência de dor física
3 – Pode ser uma sensação de tilintar ou som em que a pessoa encontra sua consciência pairando sobre seu corpo físico próximo do teto, observando a equipe médica revivê-lo(a). Após um momento, o indivíduo reconhece que está observando seu próprio corpo, mas fica indiferente com esta descoberta.
4 – A pessoa pode ver que tem um corpo não-material e, menos freqüentemente, pode ver um cordão ou linha unindo ao corpo físico. Seu “corpo” sente leveza e ausência de dor mesmo quando os médicos realizam procedimentos que ordinariamente seriam dolorosos.
5 – As percepções da pessoa estão melhoradas, podendo se mover com a vontade ou desejo, e o indivíduo “escuta” outros no recinto falando por transferência de pensamento. Pode recordar coisas de sua vida pregressa e seus eventos recentes.
6 – A pessoa pode experimentar aspectos posteriores de uma NDE: um túnel escuro, revisão de vida, ir em direção a uma luz, encontrar parentes falecidos, entre outros. O indivíduo pode perceber ou ser orientado a voltar ao seu corpo.
7 – A pessoa retorna ao corpo e pode, neste ponto, ter percepções adicionais de ambientes físicos.
8 – A pessoa se reúne com o corpo físico. O indivíduo volta a si, puxado de volta através do túnel, ou voltar instantaneamente ao corpo físico. Sua perspectiva é agora dentro do corpo, olhando acima. A dor física retorna. A pessoa pode perder a consciência nesse momento.
9 – Após a recuperação física, a pessoa relata a experiência a outros. A pessoa deseja verificar sua experiência e busca outros para confirmar que o que viu realmente aconteceu ou verifica os eventos por si só.
10 – A memória da experiência é vívida, duradoura e, após um tempo, a experiência é integrada com uma das experiências da vida pessoal juntamente com outros possíveis efeitos posteriores. (Greyson e Stevenson, 1980).

Uma fenomenologia mais detalhada especificamente do componente OBE da NDE é autorizada, a qual nós apresentamos nas seções subseqüentes: a continuidade da consciência durante a NDE/OBE, a veracidade das percepções durante a NDE/OBE, uma comparação da NDE/OBE versus outros tipos de OBE e, finalmente, a fenomenologia da NDE/OBE.

Continuidade da Consciência com a Completa Cessação da Função Cerebral

Para desenvolver um entendimento da relação da consciência durante uma NDE com o funcionamento do cérebro, vários pesquisadores têm focado em estudos prospectivos dos sobreviventes de parada cardíaca para prover um modelo sem ambigüidade da NDE durante o processo da morte (Parnia, Waller, Yeates, e Fenwick, 2001; Parnia e Fenwick, 2002). A NDE ocorre com razoável freqüência durante paradas cardíacas, às vezes com uma fase OBE que inclui elementos verídicos (Sabom, 1982; Sabom, 1998; van Lommel, van Wees, Meyers, and Elfferich, 2001). A fisiologia da função cardíaca, da função respiratória, da atividade elétrica cerebral e da atividade vascular cerebral seguintes a uma parada cardíaca é bem conhecida e corresponde aos critérios para determinação da morte: ausência de atividade cardíaca, ausência de respiração espontânea e pupilas dilatadas e fixas. Dentro de 10 segundos após uma parada, a corrente sanguínea, a atividade elétrica cerebral e a função do tronco cerebral rapidamente cessam e o paciente rapidamente perde a consciência. Por um período, o paciente pode ser considerado clinicamente morto, mesmo se ele é ressuscitado com sucesso subseqüentemente. Contudo, durante a parada, alguns pacientes relatam experiências fora-do-corpo vívidas e conscientes deles mesmos e de seus ambientes físicos que são característicos da NDE.

Dentro dos primeiros 10 segundos ou próximos, a velocidade da corrente sanguínea na artéria cerebral média (Vmca) cai para zero cm/seg e a pressão sanguínea cai para menos de 20 mmHg (Gopalan, Lee, Ikeda, e Burch, 1999; de Vries, Bakker, Visser, Diephuis, e van Huffelen, 1998; Clute e Levy, 1990; Parnia e Fenwick, 2002). Vmca é uma confiável medida da corrente sanguínea cerebral geral. Também durante os iniciais 10 segundos, o eletroencefalograma (EEG) do paciente sofre primeiro por um tempo curto um aumento nas freqüências alfa, então uma queda tanto na alfa como na beta, um aumento nas freqüências delta e finalmente uma queda nas delta (Visser, Wieneke, van Huffelen, de Vries, e Bakker, 2001). O EEG então cai a zero ou isoeletricidade (plano) dentro de 10-20 segundos após a parada (de Vries, Bakker, Visser, Diephuis, e van Huffelen, 1998; Clute e Levy, 1990; Losasso, Muzzi, Meyer, e Sharbrough, 1992; Vriens, Bakker, de Vries, Wieneke, e van Huffelen, 1996). O paciente perde a consciência antes da isoeletricidade, durante a elevada atividade delta, que é cerca de 10 segundos após a parada cardíaca (Aminoff, Scheinman, Griffin e Herre, 1988; Brenner, 1997). Também logo antes da isoleletricidade, o paciente pode exibir leves espasmos e contrações musculares (Brenner, 1997). Com o declínio da atividade elétrica cortical, a atividade do tronco cerebral também declina simultaneamente à isoeletricidade. Este efeito é observado diretamente pelo monitoramento dos potencias auditivos evocados durante a parada cardíaca induzida em procedimentos de parada circulatória hipotérmica para tratamentos de aneurismas circulatórios cerebrais (Spetzler, Hadley, Rigamonti, Carter, Raudzens, Shedd, e Wilkinson, 1988). A isoeletricidade do tronco cerebral é também consistente com a observada perda de consciência e perda geral da função autônoma e reflexos associados com a atividade elétrica do tronco cerebral: não há respiração espontânea e resposta pupilar à luz, reflexos das córneas, do maxilar ou de tosse. Uma vez que a atividade elétrica do tronco cerebral espelha a atividade elétrica cortical como um resultado do nível da circulação cerebral, é razoável inferir que toda a atividade elétrica cerebral cessa nos primeiros 15 segundos, em média, da parada cardíaca.

Com o início da ressuscitação cardiopulmonar (CPR), tais como compressões torácicas, desfibrilações, respiração artificial e administração de drogas, baixos níveis da circulação sanguínea podem regredir. Com a reperfusão, o EEG pode começar a se recuperar, mesmo antes da função cardíaca ser restaurada (por exemplo, Losasso, Muzzi, Meyer, e Sharbrough, 1992). A recuperação do EEG segue o padrão das mudanças do EEG na parada cardíaca em ordem reversa (Brenner, 1997). Enquanto a duração da parada aumenta, o tempo de recuperação do EEG (o tempo, medido da recuperação cardíaca ao retorno ao EEG normal) aumenta ainda mais. Por exemplo, uma parada de 40 segundos resultará num tempo de recuperação de um adicional cerca 80 segundos (de Vries, Visser, and Bakker, 1997; Vriens, Bakker, de Vries, Wieneke, e van Huffelen, 1996). Mesmo após curtos períodos de inconsciência de 60-90 segundos, o paciente está geralmente ofuscado, lento à respostas ou confuso por cerca de 30 segundos após recobrar a consciência (Aminoff, Scheinman, Griffin, and Herre, 1988).

Se a parada dura mais que um limiar de 37 segundos, quando a circulação então se reconstitui, há um período de “hiperfusão” cerebral onde a corrente sanguínea e a levada de oxigênio para o cérebro estão bem acima do normal (Smith, Levy, Maris e Chance, 1990; de Vries, Bakker, Visser, Diephuis, e van Huffelen, 1998). Os dados para períodos mais longos de parada cardíaca estão disponíveis de experimentos com animais. Numa isquemia cerebral induzida em coelhos de 2,5 a 15 minutos, regiões específicas do cérebro desenvolvem defeitos circulatórios os quais inibem ou previnem reperfusões, um fenômeno chamado “não-refluxo multifocal” (Ames, Wright, Kowada, Thurston e Majno, 1968). Os defeitos do não-refluxo ocorrem durante a parada e aumentam em número proporcional ao aumento da duração da isquemia. Os defeitos são provavelmente causados por pressão pós-parada reduzida, elevada viscosidade sanguínea, coágulos sanguíneos disseminados e compressão de vasos sanguíneos devido ao inchaço (Buunk, van der Hoeven e Meinders, 2000). Se os defeitos são muito severos, a hiperfusão global e a hiperoxia que se seguem não são adequadamente capazes de reoxigenar as regiões afetadas. Assim, quanto maior a duração das isquemias cerebrais, maior a extensão das áreas de dano permanente que podem ocorrer. As regiões que eram mais susceptíveis aos danos do não-refluxo nos experimentos animais foram o estriado, o tálamo e o hipocampo assim como várias regiões do córtex (Kågström, Smith, e Siesjö, 1983). Esses resultados são consistentes com os achados em humanos (Kinney, Korein, Panigrahy, Kikkes, e Goode, 1994; Fujioka, Nishio, Miyamoto, Hiramatsu, Sakaki, Okuchi, Taoka, e Fujioka, 2000) e são consistentes com os observados déficits cognitivos e de memória em sobreviventes de paradas cardíacas (Dougherty, 1994; Sauvé, Walker, Massa, Winkle, e Scheinman, 1996).

Em unidades de terapia cardíaca, a duração comum das paradas cardíacas é de 1 a 2 minutos (van Lommel, 2006), 5 minutos em hospitais de salas não monitoradas (Herlitz, Bång, Aune, Ekström, Lundström, e Holmberg, 2001) e mesmo mais longas numa parada cardíaca fora do ambiente hospitalar. No estudo prospectivo holandês de 344 paradas cardíacas (van Lommel, van Wees, Meyers, e Elfferich, 2001), 234 (68%) dos 344 pacientes foram ressuscitados com sucesso no hospital. Destes, 190 (81%) foram ressuscitados dentro de 2 minutos da parada e 187 (80%) estiveram inconscientes menos de 5 minutos. Outros 30 que foram ressuscitados no hospital (13%) foram ressuscitados dentro de 1 minuto da parada e estiveram inconscientes menos de 2 minutos. Dos 344 pacientes do estudo, 101 (29%) receberam CPR fora do hospital (geralmente na ambulância) e ouros 9 (3%) foram ressuscitados tanto fora como dentro do hospital. Desses 110 pacientes, 88 (80%) tiveram uma parada mais longa que 2 minutos e 62 (56%) estiveram inconscientes por mais de 10 minutos. Apenas 12 pacientes (9%) tiveram uma parada mais longa que 10 minutos. Em geral, 123 (36%) dos 344 pacientes estiveram inconscientes mais que 60 minutos. A duração média da parada cardíaca nesse estudo foi 3,8 minutos e a duração média da inconsciência foi de 109 minutos (n=344).

Essas estatísticas são provavelmente típicas da ressuscitação das paradas cardíacas em geral. Assim, o típico sobrevivente de parada cardíaca em hospital sofre uma parada por 1 a 2 minutos e fica inconsciente por 2,5 a 5 minutos. O típico sobrevivente de parada cárdica externo ao hospital sofre uma parada por cerca de 4 a 10 minutos e permanece inconsciente por cerca de 10 a 60 minutos.

Da precedente descrição da fisiologia da parada cardíaca, o período da isoeletricidade cerebral global tipicamente vai de 15 segundos após a parada a 5-10 segundos após o início da CPR (compressões torácicas ou desfibriladores), mas reverte a isoeletricidade quando as compressões torácicas são descontinuadas, se a função cardíaca não inicia. Mesmo com o reinício da atividade elétrica, o EEG não retorna ao normal por um considerável tempo após a atividade rítmica delta reaparecer, dependendo da profundidade da parada (de Vries, Visser e Bakker, 1997; Vriens, et al., 1996). Num cenário de caso ideal de uma parada de apenas 40 segundos, o tempo de recuperação do EEG seria um adicional de 80 segundos. Em paradas mais longas, o tempo de recuperação do EEG e funções cognitivas correspondentes seriam influenciados pelos efeitos de não-refluxo multifocais que ocorrem e seriam consideravelmente mais longos. Similarmente, o período de inconsciência vai de 10 segundos após a parada até algum tempo após o retorno do EEG normal, provavelmente seguido por um período de desorientação ou consciência confusa. Em paradas cardíacas de 2 minutos ou mais, a duração da inconsciência é provavelmente mais influenciada por efeitos de não-refluxo multifocais.

Durante o período de isoeletricidade cerebral global e perda da consciência, alguns sobreviventes de parada cardíaca reportaram NDEs vívidas que incluem OBEs com percepções verídicas de eventos de suas ressuscitações. O estudo de Michael Sabom (1982) consistiu de 106 pacientes que haviam sobrevivido a episódios não cirúrgicos de inconsciência e estiveram próximos da morte, incluindo 78 paradas cardíacas, 20 comas, 7 acidentes com risco de morte e 1 tentativa de suicídio. Desses 106 pacientes, 61 reportaram uma NDE seguindo o evento de crise da quase-morte. Notem que esses eventos de quase-morte que incluíram NDE não necessariamente foram os eventos que traziam os pacientes à atenção de Sabom. Dos 61 NDErs, 32 alegaram ter visto alguma parte de sua ressuscitação numa OBE, mas 26 destes eram incapazes de prover detalhes suficientes para verificação, porque a atenção do paciente estava diretamente voltada a outras coisas e não aos detalhes da ressuscitação, por exemplo a sensação de liberdade ou o estupefação do paciente no que estava acontecendo a ele. Os 6 pacientes restantes, todos casos de parada cardíaca, proveram detalhes que puderam ser analisados. Desses 6 sobreviventes cardíacos, 4 foram entrevistados 1 ano após o evento de quase-morte, 1 após 4 anos e 1 após 5 anos.

Em cada um dos seis casos, os detalhes providos da percepção OBE corresponderam precisamente com os procedimentos médicos, como o uso de compressão torácica, desfibrilação e coleta de sangue para análise dos gases sanguíneos e com os registros médicos em extensão e detalhes contidos. Muitas das percepções OBE foram de eventos que ocorreram durante o período de provável isoeletricidade cerebral, descrevendo os eventos prévios à CPR e os passos iniciais da CPR. Posteriormente, os pacientes não experimentaram interrupção ou alteração da experiência consciente, mesmo quando a atividade elétrica cerebral provavelmente reiniciaria, até haver uma clara transição de volta ao corpo. Em 5 dos 6 casos, o paciente deu uma descrição definida dessa transição, geralmente descrevendo como uma troca de perspectiva de estar fora do corpo olhando para baixo para estar dentro do corpo olhando para cima. Essas transições foram associadas com o retorno da consciência no corpo.

Nos primeiros três casos de Sabom, a descrição provida pelo paciente durante o período de provável isoeletricidade foi precisa comparada com o registro médico.

* Caso 1: o paciente relatou como tendo caído no chão, podendo ver o chão de cima, estava flutuando e posto numa maca, o médico deu um forte golpe no peito e então fez compressões torácicas. O registro médico descreveu que o paciente desmaiou na sala, não tinha pulso ou respiração e a CPR foi iniciada.

* Caso 2: o paciente relatou ter uma IV inserida, compressões torácicas e uma agulha inserida para “algo sobre gases sanguíneos”. O registros médicos descreveram o paciente como inconsciente, uma IV foi iniciada, uma grande injeção de glicose intravenosa dada (sem resposta), então “medidas ressuscitadoras completas” foram iniciadas e o sangue arterial foi colhido. Interessantemente, a desfibrilação não foi notada pelo paciente ou mencionada no registro médico.

* Caso 3: o paciente relatou vomitar, em seguida deixar o corpo e então ver de cima a enfermeira administra-lhe um choque que puxou o paciente de volta ao corpo. O registro médico descreve o paciente vomitando e então desenvolvendo fibrilação ventricular (parada cardíaca) a qual “respondeu prontamente à desfibrilação”.

Posteriormente, o balanço das descrições nesses três casos, além do período de provável isoeletricidade, foi consistente com o balanço dos respectivos registros médicos. Em outros casos, o registro médico não estava disponível ou tinha apenas uma mínima descrição. Contudo, os relatos do pacientes continham puramente percepções visuais que eram ou posteriormente verificadas ou achadas como provavelmente acuradas.

* Caso 4: o paciente descreveu o uso de uma máquina desfibriladora após o início compressões torácicas da CPR. A máquina tinha um medidor com duas agulhas, uma fixa e uma móvel, a última a qual gradualmente se moveu. (Isto provavelmente descreve um medidor que marca os watts-segundos da desfibrilação e mede a carga da máquina naquela série.) A enfermeira ou o médico moveu a agulha fixa toda vez antes da desfibrilação e a outra agulha gradualmente se moveu. O paciente então descreveu os eletrodos do desfibrilador como discos redondos com botões em cima da alavanca a qual é usada para fornecer o choque. O paciente a seguir descreve a sequência de ressuscitação de um choque do desfibrilador entre um terço e meia escala, compressões torácicas, um choque mais forte (mais de meia escala), compressões torácicas e um choque mais forte (cerca de três quartos), após o que o paciente sentiu, ele estava retornando à consciência (ordinária). Não está claro se houve compressões torácicas prévias à primeira desfibrilação. Se não houve, então estas percepções puramente visuais provavelmente começaram durante a isoeletricidade; do contrário foram feitas certamente durante um período de inconsciência. A descrição do desfibrilador é consistente com desfibriladores que eram de uso comum na época (1973) e a descrição de desfibrilações progressivamente mais fortes intercalaram com compressões torácicas é também consistente com práticas médicas comuns. O paciente mesmo negou ter visto tal desfibrilador ou procedimentos CPR antes. As percepções puramente visuais do ajuste e do movimento das duas agulhas poderia somente ter sido feita enquanto a máquina estava em uso, um fato que ajuda a confirmar que as percepções ocorreram durante o procedimento e não em algum outro momento. 

* Caso 5: o paciente descreveu que “tiros” foram primeiramente administrados na virilha, o médico então começou a inserir uma agulha em seu corpo em um lado pela axila, mas então mudou de idéia e decidiu por em outro lado, próximo ao coração. (Este procedimento foi provavelmente um tentativa de adentrar a veia subclávia, abaixo da clavícula, para administrar drogas ou inserir um cateter.) Após a ressuscitação, o paciente reportou dizendo ao médico que ele observou que o este mudou de idéia e foi para o outro lado para fazer este procedimento e o médico confirmou seu relato. Da descrição do paciente, o sangue arterial foi primeiro colhido, então o procedimento subclaviana foi feito e então a desfibrilação foi realizada. O registro médico descreveu que a CPR completa foi instituída e os gases sanguímeos foram drenados. Da descrição do paciente, não está claro quando, quanto ou mesmo se as compressões torácicas foram feitas, logo não está claro se a percepção visual do médico mudando de idéia e movendo-se ao outro lado ocorreu durante a provável isoeletrcidade. Em qualquer caso, ocorreu enquanto o presente paciente estava inconsciente.

*Caso 6: o paciente descreveu o uso de compressões torácicas, desfibrilação e injeção no coração como se ele estivesse mais e mais alto, fora do corpo. O paciente então descreveu ver, enquanto ele continuava inconsciente, sua esposa, seu filho mais velho e sua filha mais velha descer até a sala e falar com o médico. Sabom foi capaz de confirmar seu relato independentemente com sua esposa e filha. A esposa havia vindo para visita, sem anúncio, com dois de seis filhos adultos e estava a pelo menos 10 quartos do quarto do paciente quando a parada cardíaca ocorreu. A enfermeira impediu-os de seguir adiante. O paciente foi conduzido para o hall, mas nunca olhando em direção de sua família e foi levado para outro andar sem cruzar com eles no hall. O paciente acuradamente identificou quem estava com sua esposa, mesmo a visita da família não tendo sido esperada e a esposa podendo trazer qualquer um ou dois de seus seis filhos para visita. A esposa confirmou a conversa com o médico no momento. Novamente, esta percepção puramente visual ocorreu durante a inconsciência.

O estudo de Sabom mostra a dificuldade em verificar relatos de percepções verídicas durante uma NDE/OBE. O paciente geralmente pode prover muitos detalhes específicos de eventos percebidos durante uma OBE, mas os registros médicos geralmente fornecem apenas aqueles detalhes que são necessários para o cuidado médico em curso. A menos que os médicos, enfermeiros e o corpo clínico sejam entrevistados dentro de um curto período de tempo do evento, suas memórias não serão provavelmente detalhadas ou acuradas. Estas dificuldades são limitações resultantes dos procedimentos das pesquisas e podem ser superadas. Um protocolo de entrevistas independentes tanto de pacientes como do corpo clínico tão cedo quanto possível após o evento forneceria verificação tanto das percepções detalhadas da OBE do paciente, como da condição médica específica do paciente no momento.

Para ajudar a verificar que as percepções OBE vêm da percepção real dos eventos, Sabom visou eliminar a possibilidade de que as percepções do paciente pudessem ser atribuídas à imaginação baseadas em conhecimento prévio dos procedimentos CPR (derivados, por exemplo, de séries de televisão), em expectativas baseadas em experiência prévia com procedimentos cardíacos de eventos médicos anteriores ou em simples adivinhações. Sabom entrevistou um grupo controle de 25 pacientes cardíacos, com histórico similar a aqueles que reportaram OBE, tendo uma doença cardíaca de duração média maior que 5 anos, com experiências prévias em internações de ataque cardíaco, cateterismo, cirurgia em coração aberto, parada cardíaca sem OBE, entre outros. Os controles foram solicitados a descrever em detalhe visual o que eles razoavelmente esperariam ver do canto de um quarto de hospital durante a CPR de um paciente de parada cardíaca. 23 dos 25 pacientes controles fizeram tentativas de descrever o procedimento da CPR. Destes, 20 fizeram um erro crasso em seus relatos descritivos, mais comumente o uso de respiração boca-a-boca, que é raramente usado num procedimento hospitalar. Os outros 3 deram limitadas descrições do procedimento CPR sem erro óbvio. Um desses controles omitiu elementos chaves tais como compressões torácicas e ventilação artificial e outros 2 haviam testemunhado ressuscitações reais em ambientes hospitalares.

Sabom concluiu que os resultados do grupo controle sugerem que as descrições da CPR de NDE/OBEs não foram baseadas somente no conhecimento prévio geral dos pacientes em CPR. Mais ainda, há forte correspondência entre as percepções OBE e os reais procedimentos descritos no registro médico. Os relatos em OBE contêm numerosos detalhes específicos que eram ausentes das descrições do grupo controle. Sabom também concluiu que o staff médico muito provavelmente não forneceu detalhes adicionais sobre os procedimentos CPR dos pacientes porque não havia razão concebível para fazê-lo. Mais ainda, era improvável que os pacientes montassem juntos um retrato da ressuscitação de percepções visuais, auditivas ou (adicionaríamos) táteis feitas num estado semiconsciente porque as percepções dos detalhes foram visuais em sua natureza, mas fora do campo visual dos olhos físicos do paciente e não poderiam ser derivadas de informações sensórias auditivas (ou táteis). Nós adicionaríamos que algumas das percepções foram feitas após a parada e previamente ao início da CPR, durante o período de provável isoeletricidade cerebral completa, quando nenhuma percepção, mesmo subliminar, seria possível. Também acrescentaríamos que embora alguns detalhes possam ser inferidos devidos a efeitos físicos mais duradouros, por exemplo, a colocação dos eletrodos do desfibrilador à queimaduras ou desconfortos no peito, o fato de que as compressões torácicas à dores no peito ou costelas quebradas e a colocação de um IV ao fato de que o IV continuava lá no despertar, estes detalhes sozinhos não podem explicar a correspondência íntima do relatos da sequência de eventos do paciente com os registros médicos, nem os detalhes que são puramente visuais em natureza, tais como os comandos do desfibrilador e as agulhas no caso 4.

Sam Parnia (2006, p. 77) documentou um segundo exemplo de percepções verídicas durante uma OBE, um relato de Richard Mansfield, um experiente cardiologista que era o chefe de equipe cardíaca ressuscitando um homem de 32 anos numa parada cardíaca. O paciente foi observado inicialmente sem pulso, sem respiração e estava em assístole (um eletrocardiograma completamente plano). A ressuscitação incluiu entubação, ciclos de três minutos de compressões torácicas, adrenalina e atropina. A despeito desses esforços, por um período maior que 30 minutos, o paciente permaneceu sem pulso e em assístole. Antes de encerrarem os esforços, Mansfield checou novamente se o monitor cardíaco e cabos estavam funcionado adequadamente e se não havia pulso. A ressuscitação foi parada e o grupo aceitou que o paciente estava morto. Mansfield deixou a sala para escrever os registros médicos e saiu por 15 minutos. Ele reentrou na sala para checar quantas doses de adrenalinas haviam sido administradas e notou que o paciente aparentava estar definitivamente mais ruborizado que quando o médico deixou a sala. Mansfield observou de novo a virilha do paciente e sentiu um pulso. A ressuscitação foi continuada e o paciente, por fim, estabilizado e transferido para a terapia intensiva.

Cerca de uma semana depois, Mansfield entrevistou o paciente; ele não havia sofrido qualquer dano cerebral, a despeito de estar em assístole por mais de 30 minutos e sem qualquer assistência em termos de compressão cardíaca ou oxigênio por outros 15 minutos. Mais ainda, o paciente descreveu como ele havia observado tudo de cima e descreveu em detalhe tudo o que aconteceu: tudo que o médico disse e fez no procedimento, incluindo a saída do quarto, voltando mais tarde, observando o paciente, revendo o pulso e reiniciando a ressuscitação. O paciente foi capaz de recontar todos esses detalhes corretamente, de acordo com Mansfield.

Durante os períodos de compressão torácica nessa ressuscitação, é provável que alguma atividade elétrica cerebral tenha se iniciado, mas, uma vez que o paciente permaneceu em assístole, tão logo as compressões torácicas pararam, a isquemia cerebral global iria continuar e o cérebro retornaria à isoeletricidade. Em algum momento depois que Mansfield deixou o quarto, o coração do paciente deve ter reiniciado espontaneamente. Contudo o paciente permanecia inconsciente e foi finalmente estabilizado e transferido à terapia intensiva. A despeito dos prováveis períodos intermitentes de isoeletricidade cerebral, o paciente era capaz de perceber todos os eventos da ressuscitação de cima. Em particular, o paciente acuradamente descreveu a decisão de parar a ressuscitação, e o médico deixando a sala, um momento quando o paciente foi confirmado pelo médico como ainda sem pulso e em assístole, consequentemente muito provavelmente em completa isoeletricidade cerebral. Os detalhes do relato do paciente não foram descritos por Mansfield, mas nós podemos assumir que as percepções do paciente ocorreram sem lapsos de consciência, assim como quando a atividade elétrica poderia ter recomeçado. Tivesse havido um lapso de consciência, a descrição do paciente de periodicamente começar a perder a consciência ou de ser puxado de volta ao corpo certamente teria sido notada.

Assim, temos um relato adicional de percepções verídicas durante uma aparente NDE/OBE, durante períodos de quase certa isoeletricidade cerebral, neste caso um relato não do próprio NDEr, mas da pessoa que seria mais capaz de verificar a acurácia dos detalhes das aparentes percepções do NDEr. Posteriormente, os detalhes foram verificados como completamente precisos dentro de uma semana do incidente. O relato de Mansfield merece posterior investigação independente, por exemplo, para reunir e correlacionar os detalhes de Mansfield, do paciente e de outro pessoal que esteve presente e de registro médicos escritos. Infelizmente, devido ao lapso de mais de 15 anos agora, tal investigação seria problemática (Parnia, comunicação pessoal, 25 Setembro de 2006). Um tratamento mais rigoroso de tais relatos de aparentes percepções verídicas no momento do evento médico forneceriam mais corroborações definitivas.

Um terceiro exemplo de aparente continuidade da consciência através de um período de cessação completa da atividade cerebral foi documentado por Sabom (1998). Pam Reynolds, 35 anos de idade, se submeteu a uma cirurgia em 1991 para um grande aneurisma da artéria basilar na base do cérebro. O complexo procedimento envolveu parada cardíaca hipotérmica que incluía a redução de sua temperatura corporal à 60°F, parando seu coração e sua respiração e drenando o sangue de seu cérebro (Spetzler, Hadley, Rigamonti, Carter,Raudzens, Shedd e Wilkinson, 1988). Neste ponto, Reynolds estava em “stand still” e, por todas as medidas, estava morta. O aneurisma foi então removido, seu sangue e sua temperatura corporal restaurados e seu coração e respiração reiniciados.

A anestesia foi induzida às 7:15 AM, os olhos de Reynolds foram tapados e fones de ouvido foram colocados que emitiam cliques de 100dB em 11 à 33 ciclos/segundo. Às 8:40, seu corpo foi coberto e por volta das 8:45 Reynolds experimentou uma NDE/OBE, assim que o cirurgião começou a cortar seu crânio com uma serra cirúrgica pneumática especializada para acessar seu cérebro. Sua visão na OBE foi mais focada e clara que o normal. Como pairava sobre o ombro do cirurgião, ela notou que a serra lembrava uma escova de dente elétrica com um formato peculiar. Usava lâminas intercambiáveis que eram mantidas num container que lembrava um estojo vazio para colocar documentos. Reynolds também ouvia comentários de uma médica sobre suas veias e artérias serem muito pequenas. Reynolds continuou a ter uma profunda NDE envolvendo um túnel, entrando numa luz incrivelmente brilhante e o encontro com alguns parentes falecidos.

Durante o tempo de sua NDE, o procedimento cirúrgico continuou: o resfriamento sanguíneo começou às 10:50 e o coração de Reynolds foi parado às 11:05. O monitor EEG registrava isoeletricidade e o funcionamento do tronco cerebral, medido por pulsos elétricos em resposta aos cliques auditivos em seus ouvidos, indo quase a zero. Reynolds foi trazida ao “stand still” por volta de 11:25 com o sangue drenado de seu cérebro. A excisão cirúrgica do aneurisma foi completada e sua corrente sanguínea restabelecida. Neste momento, os monitores de EEG e do funcionamento do tronco cerebral mostraram retorno da atividade elétrica e a função cardíaca foi iniciada. Às 12:00 o coração de Reynolds foi em fibrilação ventricular e dois desfibriladores foram usados para reiniciá-lo. Em sua NDE, Reynolds foi trazida de volta do túnel por seu tio falecido e viu seu corpo. Ela não queria voltar para o corpo, porque parecia terrível a ela, que nem um cadáver. Contudo, com um pequeno empurrão, ela reentrou em seu corpo. Às 12:32, a válvula de desvio foi removida e os cortes cirúrgicos foram fechados. Neste ponto, Reynolds lembrou ouvir a equipe cirúrgica escutando uma canção particular.

Mais tarde, Sabom verificou que as percepções de Reynolds sobre a serra cirúrgica e do comentário do médico sobre as suas veias eram exatas. No entanto, ambas estas percepções ocorreram ao redor de 8:45, enquanto Reynolds estava sob anestesia, e bem antes da isoeletricidade cerebral, que foi de aproximadamente 11:05 até talvez 11:45. Houve outro período breve de isoeletricidade, talvez 1-2 min de duração, durante o evento da fibrilação ventricular às 12:00. O momento do retorno ao corpo pode ser calculado entre aproximadamente 12:05 e o tempo dos procedimentos cirúrgicos de sutura, porque Reynolds podia identificar uma música sendo tocada ao fundo depois que tinha entrado de novo no seu corpo.

Neste relato, nós temos uma NDE/OBE consciente com percepções de verídicas durante um procedimento cirúrgico mas não durante isoeletricidade cerebral. No entanto, a NDE continuou sem interrupção por um período monitorado de provavelmente 40 min de isoeletricidade do tronco cerebral e cortical que foi documentado. O relato de Reynolds não indica em qualquer ponto de sua NDE que sua consciência diminuía ou falhava, ou que ela era trazida de volta ao seu corpo, exceto após o reinício da função cardíaca, quando foi feita empurrada para ele. Assim, embora as percepções verídicas tenham ocorrido num ponto quando Reynolds estava sob anestesia e portanto inconsciente, elas ocorreram enquanto havia atividade elétrica de cérebro ainda plena. Não obstante, a fase inicial da OBE foi parte de uma experiência consciente contínua que alcançou um período extenso de isoeletricidade cerebral global.

Numa parada cardíaca, o início de isquemia cerebral global e de isoeletricidade cerebral causam a perda de consciência na maioria dos pacientes. No entanto, alguns pacientes experimentam uma continuidade de consciência, geralmente com uma perspectiva fora do seu corpo e olhando para baixo. O paciente geralmente não experimenta nenhuma perturbação na consciência (com exceção da mudança de perspectiva) num momento quando toda atividade elétrica de cérebro quase certamente cessou. O paciente experimenta uma consciência nítida e lúcida do ambiente físico e ainda possui todos os sentidos e atributos de consciência ordinária no corpo, a saber, percepção, volição, sentimentos, pensamento e memória de acontecimentos prévios. O paciente experimenta uma continuidade completa de consciência mesmo quando a atividade elétrica cerebral recomeça, até haver uma transição clara de volta ao corpo, o que aponta que a consciência do paciente continua, agora com uma perspectiva de dentro do corpo, ou o paciente torna-se inconsciente e acorda mais tarde no corpo. A NDE torna-se integrada intimamente na memória ordinária do paciente, como outras experiências da vida. Durante o período inteiro de consciência fora-do-corpo, o paciente aparenta estar completamente inconsciente e incapaz de responder ao pessoal médico.

Assim, o fenômeno de NDE durante a parada cardíaca, com experiências fora-do-corpo verídicas de ambientes físicos durante o período de isoeletricidade cerebral global, desafia a hipótese de que essa consciência é dependente das funções cerebrais. Ordinariamente esta hipótese é correta, porque a perda de atividade elétrica cerebral quase sempre resulta em inconsciência. No entanto, os casos raros de NDE durante as paradas cardíacas demonstram que há exceções notáveis. A fenomenologia destas exceções mostram que, uma vez separada da função cerebral numa NDE, a consciência do paciente continua numa OBE mesmo que a atividade elétrica do cérebro encerre e que a consciência continuará a operar independentemente até que haja um retorno o corpo. A consciência do paciente funciona com todos os atributos de consciência costumeira, numa continuidade da experiência autoconsciente que envolve o tempo em que o paciente esteve no corpo, separado pela experiência fora-do-corpo e no momento de retorno ao corpo. O paciente experimenta as transições para fora e de volta ao corpo como ocorrências naturais, embora raras, e pode integrar a experiência inteira numa memória como uma das experiências de vida.

A Veracidade da OBE NDE

O relato precedente da continuidade de consciência durante períodos de isoeletricidade cerebral global se baseia na validade das percepções verídicas durante a NDE/OBE, porque estas percepções estabelecem que a consciência de NDE ocorreu num tempo de isoeletricidade cerebral global ou inconsciência. A validade destas percepções depende de evidência corroborativa de que as percepções eram reais (isso é, “verídicas”) e que elas não podiam ter sido imaginadas, nem mentalmente podiam construídas em algum outro momento, por exemplo, tendo sido inferida da consciência sensória subliminar durante anestesia, do conhecimento geral prévio, de expectativas derivadas de experiências anteriores, de informação fornecida por outros depois do fato, de conseqüências físicas duráveis (por exemplo, dor ou queimaduras de uma desfibrilação) ou de suposições afortunadas.

Quando uma pessoa experimenta uma NDE com percepções fora-do-corpo dos arredores imediatos, o desejo natural está em verificar se os acontecimentos ou coisas percebidas foram reais e se realmente aconteceram. De modo geral, tais percepções são descobertas informalmente como verídicas, isso é, aparentam ser reais, foram verificadas com testemunhas e confirmadas. Em contraste, relatórios de percepções numa NDE que foram descobertas como não verídicas são raras.Jan Holden relatou os resultados preliminares de um estudo de casos de percepção pretensamente verídicas em relatórios de NDE que não poderiam ser resultado de percepção normal, que foram corroborados pelo NDEr ou outros. De 93 casos, 92% aparentaram completamente exatos, 6% com elementos tidos com exatos e errôneos e <1% completamente errôneo (Holden, comunicação pessoal, 26 de outubro de 2006). Assim, se esperaria que essas percepções de NDE/OBE seriam formalmente provadas como verídicas facilmente. No entanto, só em alguns casos existem pesquisadores de NDE fazendo passos extras para corroborar completamente o que foi percebido, verificando independentemente mais de uma fonte. Tal pesquisa inclui, por exemplo, Michael Sabom (1982; 1998), Kenneth Ring e Sharon Cooper (1997; 1999), e de Emily Cook, Bruce Greyson, e Ian Stevenson (1998). Não obstante, Susan Blackmore recentemente afirmou (2004, p. 364) que nenhum caso de suposta percepção verídica numa NDE tem corroboração independente, mesmo mínima, fornecida. A afirmação de Blackmore é exagerada, mas demonstra que o nível de corroboração das reivindicações de percepções verídicas está aberto a ceticismo.

Quando nós dizemos que uma percepção é verídica, normalmente queremos dizer que corresponde aos fatos de realidade, isto é, algo que é objetivamente real. Quando um pesquisador verifica uma alegação, ele a prova que é verdadeira ou acurada por evidência ou testemunho e quando ele a corrobora, confirma e “fortalece” normalmente por verificar mais de uma fonte ou perspectiva. Assim, um relato de percepção verídica é verificado demonstrando com evidência ou testemunho que a percepção era de algo que realmente ocorreu em realidade objetiva e no momento foi alegado ser percebido. A verificação é corroborada quando o relato é verificado por mais de uma fonte ou perspectiva.

Há centenas de relatos de pretensas percepções verídicas em NDE/OBE. Normalmente são verificadas pelo próprio NDEr logo depois da experiência. As percepções freqüentemente são verificadas perguntando-se a uma outra testemunha, como em “contei ao médico o que eu via e ele disse que aconteceu justamente isso”. Normalmente não há verificação independente dos detalhes e, como o acontecimento freqüentemente ocorreu um longo tempo antes de ser relatado a um pesquisador, a verificação independente de detalhes de pessoas diferentes ou de evidência física não é mais possível.

Emily Kelly, Greyson e Stevenson (1999-2000) esboçaram os requisitos gerais para verificação e corroboração de percepção paranormal: o experimentador relata a experiência paranormal a outros logo depois da experiência, estes outros atestam quando e o que o experimentador os contou e um investigador independente confirma que os acontecimentos percebidos ocorreram conforme o experimentador os descreveu. Estes requisitos fornecem uma estrutura para requisitos ainda mais elaborados para corroboração de alegadas percepções verídicas em NDE/OBE, que talvez incluam:

O NDEr dá um relato dos acontecimentos percebidos razoavelmente logo depois da experiência, tal que os detalhes não sejam perdidos na memória, nem alterados na recontagem e não sejam confundidos pelo que o NDEr involuntariamente pode aprender de outros ao compartilhar a história. Idealmente o relato deve ser anotado com tantos detalhes quanto possíveis antes de ser compartilhado, especialmente antes de ser compartilhado com os que talvez possam verificar tais detalhes.

O investigador entrevista o NDEr e compara este relato com a versão contemporaneamente dada a outros e a versão escrita, se houver. Tanto quanto possível, o investigador necessita verificar se o NDEr não podia ter adquirido conhecimento prévio relacionado aos acontecimentos e não conseguiu conhecimento específico sobre os acontecimentos depois por meios normais (por exemplo, informação dada depois por pessoal médico ou uma testemunha dos acontecimentos).

O investigador compara o relato do NDEr com o testemunho de outros, entrevistados separadamente, verificando os detalhes do relato. O investigador sonda especificamente quaisquer elementos que não sejam coerentes com o relato do NDEr. A sincronização, a seqüência de acontecimentos e os detalhes todos precisam ser comparados. Os detalhes talvez incluam quem eram os presentes, onde estavam situados, o que estavam usando, de que forma outros itens estavam dispostos no lugar, e assim por diante. Os esboços poderiam ser feitos independentemente pelo NDEr e testemunhas e então comparados. É importante demonstrar que a percepção ocorreu no tempo do acontecimento e não foi construída, nem imaginada nem antes nem depois do acontecimento.

As sondagens do investigador para detalhes adicionais do relato do NDEr que não eram parte da história original e separadamente verificar estes detalhes com as testemunhas apropriadas.

O investigador compara o relato do NDEr com toda evidência disponível: evidência física, registros médicos, etc. Testemunho adicional do NDEr ou testemunhas pode ser necessário para esclarecer estes detalhes.

Estes requisitos se relacionam à reunião de informação para comparação e corroboração. Consideração também deve ser dada aos próprios tipos de percepções, de tal modo que eles inequivocamente eliminem outras possíveis explicações tal como essas apresentadas por Blackmore (1993, cap. 6). Blackmore propôs que o paciente inconsciente podia construir um modelo mental de realidade numa visão de olho-de-pássaro a partir de dicas sensórias físicas que subliminarmente são percebidas. Tais dicas poderiam ser visuais, auditivas, tácteis, ou proprioceptivas. Além disso, o NDEr faria inferências das conseqüências do acontecimento tal como dor de um procedimento médico ou poderia adquirir conhecimento ao ouvir por acaso conversas, mesmo subliminarmente, de outras pessoas (por exemplo, enfermeiras, médicos), antes ou depois do acontecimento. Portanto, as percepções a ser verificadas devem ser informações puramente visuais que sejam visíveis só fora da linha de visão física (mesmo que os olhos do paciente estejam fechados). A informação deve ter uma imparidade e nível de detalhe que não possa ser inferido, nem ser adivinhado, nem possa ser derivado de conhecimento prévio, nem conhecimento de outras fontes. O mais convincente caso em que uma percepção verídica obtida por meio paranormal pode ser feito é se tiver ocorrido durante um período de isoeletricidade cerebral global, como nos segundos iniciais depois da parada cardíaca, porque naquele momento toda função do cérebro cessou. No entanto, percepções verídicas feitas durante períodos de inconsciência também podem ser corroboradas se puder ser demonstrado que todas as outras possíveis fontes de dicas sensórias estavam ausentes.

Estes são requisitos desalentadores, mas acreditamos que eles podem ser satisfeitos com investigação esmerada e judiciosa dos detalhes de OBEs NDE informadas contemporaneamente e relatos de NDE talvez mais antigos, também. Algumas das pretensas OBEs NDE verídicas tiveram boa verificação, mas geralmente não alcançou o grau de corroboração independente. Para ilustrar as dificuldades da verificação e da corroboração, temos vários casos conhecidos presentes, de OBE NDE com pretensas percepções verídicas, vários dos quais nós já descrevemos em seções prévias:

Caso de George Ritchie (Ritchie e Sherrill, 1978), descrito previamente: Ritchie verificou sua percepção verídica do bar a 500 milhas a leste de seu corpo físico quando encontrou-o por acaso 10 meses depois do acontecimento mas, compreensivelmente, ele não contou a qualquer um sobre isso até tempos mais tarde. Ritchie informou a Ten. Enfermeira Retta Irvine pouco depois do acontecimento, que ele tinha tido uma experiência profundamente comovente quando “morreu” mas não deu detalhes. Ele então relatou o caso plenamente cerca de um ano mais tarde a um sargento da Aeronáutica e mais tarde a sua esposa futura. O registro médico foi confirmado pelo médico encarregado da divisão médica numa declaração registrada. O tratamento médico de Ritchie no tempo em que foi pronunciado morto e o fato de que ele relatou sua experiência em termos gerais foram confirmadas numa declaração dada pela Ten. Irvine (Ritchie, 1998).

É difícil de conceber como Ritchie poderia ter desenvolvido um modelo mental de vôo sobre as frias planícies orientais do Texas, vindo a um rio grande com uma cidade na outra margem e então parando acima de um bar que tinha características muito específicas. Mesmo assim, não há nenhuma verificação independente do caso de Ritchie, onde a descrição do bar foi dada antes do seu avistamento 10 meses mais tarde, que então poderia ser comparado com o edifício real. Assim, não há nenhuma corroboração das próprias percepções verídicas. Além do mais, enquanto os detalhes gerais de seu caso coincidem com os relatos dados verbalmente no tempo sobre seu tratamento, as declarações escritas corroborativas foram feitas depois de uns 14 anos e são muito gerais.

Sabom (1982) caso 6, descrito previamente: O paciente via sua esposa e dois dos seus filhos conversando com o médico abaixo do corredor de onde sua reanimação havia começado. Sua esposa verificou que os três estavam ali sem aviso prévio e que seu marido não poderia tê-la visto. Sabom verificou os relatos dentro de 13 meses desde o acontecimento e também verificou os fatos gerais com a filha do paciente que estava também presente. Infelizmente, o paciente não deu um relato prévio antes de contar a sua esposa, logo, os fatos das duas contas facilmente podiam ter sido confundidos. Mais detalhes poderiam ser obtidos que não foram compartilhados entre o paciente e sua esposa, por exemplo, a identidade do médico ou o que os membros da família vestiam. Estes fatos então poderiam ser verificados independentemente entre as testemunhas. Também, o médico e a enfermeira (que tinha parado a família no corredor) poderiam ser entrevistados para corroborar posteriormente os dois relatos.

Caso de Richard Mansfield (Parnia, 2006), descrito previamente: Mansfield confirmou que seu paciente descreveu precisamente os acontecimentos da sua reanimação mesmo estando inconsciente e permanecido em assístole quando a equipe médica abandonou a reanimação. Infelizmente não há nenhuma declaração do próprio paciente e nenhum registro médicos para comparar, não havendo, pois, nenhuma verificação independente dos fatos. Muitos mais detalhes poderiam ser obtidos e verificados com outras fontes para corroborar os fatos. Como com outros exemplos, este acontecimento ocorreu há muitos anos, então a possibilidade de que mais investigação conseguisse qualquer corroboração é remota.

Caso de Pam Reynolds (Sabom, 1998), descrito previamente: Reynolds com precisão descreveu sua percepção visual da serra óssea e seu estojo de lâminas intercambiáveis, como Sabom verificou. No momento, ela estava sob anestesia geral e os seus olhos foram vedados mas ela não estava no “standstill”. Mesmo que fosse impossível para ela enxergar, é possível, que ela ainda pudesse ouvir a serra, ainda que subliminarmente (embora seja improvável dado os estalidos de 95 dB na freqüência de 20/seg nas suas orelhas) e sentir a serra tal como foi usada. Do conhecimento prévio de turbinas de dentista (que também é algo similar a uma escova de dentes elétrica), com bandejas semelhantes e brocas, seria possível desenvolver um quadro mental da serra óssea que seja bastante similar. No entanto, há um número de detalhes sobre a serra óssea que não são de forma alguma similares a uma escova de dentes elétrica ou uma turbina de dentista, como podem ser vistas por fotos da serra e seu estojo. Reynolds também deu alguma descrição de que estava presente na sala de operação. Assim, seria possível Reynolds fazer esboços da serra e seu estojo e também a disposição do equipamento e as posições do pessoal médico na sala de operação. Um ou mais médicos também independentemente podiam esboçar estes últimos detalhes. Os esboços de Reynolds então poderiam ser comparados com as outras imagens.

Paciente das dentaduras extraviadas (van Lommel, van Wees, Meyers, e Elfferich, 2001): O paciente cardíaco em questão, idade 44, foi levado ao hospital com parada cardíaca e recebeu compressões torácicas e desfibrilação sem entubação. O ritmo cardíaco do paciente ainda não era estável e o enfermeiro da unidade de tratamento coronária procurou entubá-lo, mas percebeu que o homem tinha dentadura superior. O enfermeiro retirou a dentadura e os colocou sobre o “crash car”. O CPR continuou e eventualmente ritmo do paciente estabilizou. Depois de mais que uma semana, o paciente se recuperou e identificou o enfermeiro quando ele chegou para distribuir remédios. O paciente teve percepções de cima, descreveu corretamente em detalhar o lugar onde o CPR tinha sido feito e as pessoas que estavam presentes. O paciente corretamente identificou o enfermeiro como o que tinha retirado as dentaduras postiças e as colocado no crash car, que tinha várias garrafas nele e uma gaveta móvel embaixo de onde a enfermeira colocou a dentaduras postiças.

Evidentemente não houve verificação adicional dos detalhes, e nesse caso não houve verificação independente do caso do paciente, uma vez o relato do paciente e a verificação do enfermeiro aparentemente aconteceram ao mesmo tempo, com uma boa possibilidade de colaboração involuntária. Além do mais, não foi informado qual o estado cardíaco do paciente no momento em que as dentaduras foram retiradas. Se as compressões torácicas haviam sido paradas para o procedimento de entubação e se o coração do paciente tinha retornado à fibrilação ventricular, então um caso poderia ser feito para que estas percepções fossem obtidas durante a isoeletricidade cerebral. Em todo o caso, o paciente poderia inferir que suas dentaduras foram retiradas porque acordou sem elas e é possível que ele subliminarmente pudesse ter sentido que estavam sendo retiradas, tendo ouvido o tilintar de garrafas na carreta e a abertura de gaveta, ouvindo a voz do enfermeiro e assim por diante. Em outras palavras, há informação insuficiente para eliminar outras possíveis explicações das pretensas percepções verídicas do paciente. Posterior investigação independente dos detalhes fornecidos pelo paciente e pelo pessoal que estava presente talvez revelem percepções puramente visuais que poderiam ser verificadas e corroboradas como percepções verídicas fora-do-corpo. Infelizmente, isso não é possível porque o acontecimento ocorreu em 1988 (van Lommel, comunicação pessoal, outubro 27, 2006).

Sapato de Maria (Clark, 1984; Sharp, 1995; Ring e Valarino, 1998): Maria era um trabalhadora imigrante hispânica que sofreu um ataque cardíaco em 1977. Depois de alguns dias na unidade cardíaca do hospital, ela sofreu parada cardíaca e rapidamente foi reanimada, mas permaneceu em coma durante várias horas. No dia seguinte, ela relatou a Kimberly Clark, uma assistente social que a ajudava, que, durante a parada, ela teve percepções do seu corpo perto do teto, do staff médico presente, do equipamento médico e do papel de eletrocardiograma que tinha caído no chão. Ficou distraída e foi “movida” para cima da entrada da emergência do hospital e foi novamente distraída por algo que ela via sobre uma saliência da janela do terceiro andar. Era um tênis masculino azul-marinho que tinha uma mancha onde o dedo mínimo entraria e um cadarço que fora enfiado sob o calcanhar.

Clark procurou primeiro fora do hospital pelo chão e então por dentro, indo de sala em sala no terceiro andar, verificando as soleiras das janelas. Clark achou o sapato numa soleira do lado norte da ala oeste do hospital, mas de seu ponto de vista podia ver só o topo do sapato e o interior. Quando ela recobrou o sapato, Clark achou que combinou com a descrição de Maria exatamente, com a área manchada e sapato atado sob o calcanhar. Quando Clark retornou a Maria, ela primeiramente pediu à Maria que se lembrasse de como o interior do sapato parecia. Não, Maria não tinha estado alto o suficiente para ver dentro do sapato. Então Clark mostrou a Maria o sapato e a história de sua visão do sapato durante a parada cardíaca foi compartilhada com numerosas enfermeiras e médicos que vieram todos para ver Maria e o sapato. Aqui temos uma aparente percepção verídica puramente visual, cujo ponto de vista não podia ter sido feito de qualquer perspectiva exceto do exterior do edifício.

Infelizmente, Maria nunca foi entrevistada separadamente e o sapato famoso foi perdido, de modo que sua condição não pode ser verificada para mais detalhes. Os registros médicos de Maria não foram verificados e membros do pessoal do hospital não foram entrevistados para verificar se foram noticiados sobre o incidente pouco depois que ele aconteceu. Portanto, embora a percepção verídica tenha sido verificada através de Clark por evidência física, pouco depois aconteceu, o relato permanece não corroborado por qualquer outra fonte.

Para estabelecer que percepções pretendidas verídicas as são de fato, pesquisadores de NDE precisam ser mais exatos, como estes exemplos esperançosamente demonstram, na continuação e investigação, em entrevistar NDErs sobre sua experiência e em corroborar seus relatos com evidência e testemunho independente de outros.

Uma aproximação promissora para corroborar percepções verídicas em estudos prospectivos correntes de NDE é o uso de alvos visuais escondidos em lugares do hospital onde as NDEs são mais possíveis de ocorrer (Greyson, 2000a, p. 343; Parnia, Waller, Yeates, e Fenwick, 2001). Se o paciente tem uma OBE, sua perspectiva visual permitirá que veja o alvo escondido e mais tarde informe seu conteúdo. Várias tentativas com alvos escondidos foram feitas, mas, até agora, foram malsucedidas, devido ao número baixo de NDEs nos lugares alvo. Também parece que os NDErs focalizam sua atenção mais na atividade da reanimação e não observam ao redor do lugar, então nenhum resultado positivo foi informado ainda.

Há três aspectos da fenomenologia da NDE/OBE que podem ajudar com este problema. Primeiro, uns poucos NDErs têm comentado sobre o que tem tomado seus interesses e suas atenções durante a OBE (por exemplo, Sabom, 1982, p. 97). Os pacientes tendem a dirigir seu interesse baseado em conexões humanas (por exemplo, a enfermeira, seu esposo) e os sentimentos positivos que eles percebem destas pessoas. Segundo, em alguns casos, o NDEr respondeu a um repetido chamado de seu nome ou ao médico declarando, “Jenny, você não pode morrer”! e então retornou ao seu corpo. Assim, o NDEr “ouvirá” e dirigirá sua atenção a alguém que a eles se dirija. Finalmente, alguns NDErs relatam que eles podem “ouvir” palavras faladas não pela audição, mas aparentemente por telepatia.

Portanto, sugerimos que esse estudo de alvos escondidos poderia ser aumentado por investigadores que sigam um programa, um protocolo verbal selecionado aleatoriamente, que é comunicado ao paciente mentalmente quando o paciente está possivelmente tendo uma NDE. O investigador pode receber a atenção do paciente dirigindo-se a ele pelo nome, com uma atitude afetiva calorosa, e então mentalmente recitar a mensagem prescrita. A apresentação incluiria uma ou mais pistas facilmente identificáveis, dicas visuais selecionadas aleatoriamente que seriam externas à linha de visão física do paciente (por exemplo, algo distinto que o investigador está vestindo na frente). O investigador então sairia e documentaria os detalhes da apresentação e os acontecimentos médicos ocorrendo com o paciente no momento. Um segundo investigador, sem qualquer conhecimento da apresentação específica usada, mais tarde entrevistaria o paciente e documentaria os resultados, inclusive tendo o paciente identificado o outro investigador de um alinhamento de quadro de possíveis investigadores. Este procedimento poderia ser integrado com alvos escondidos existentes por apontamento e mentalmente dirigindo a atenção do paciente para notar o que é exibido no alvo. Também poderia ser usado sem alvos escondidos mostrando um quadro aleatoriamente selecionado ao paciente como parte do protocolo.

Em resumo, o componente de OBE das NDEs freqüentemente inclui percepções verídicas que informalmente são verificadas pelo NDEr. As percepções que são provadas como não verídicas sob checagem raramente são informadas. Alguns pesquisadores de NDE verificaram-nas e, em alguma extensão, corroboraram as percepções verídicas do NDEr com resultados muito convincentes, mas uma verificação plena e corroboração que elimina todas possíveis explicações alternativas ainda não foi possível por uma variedade de razões. Os pesquisadores de NDE necessitam continuar a perseguir uma investigação rigorosa de NDEs recentes. Muito sucesso é provável de ser obtido em estudos prospectivos usando alvos escondidos, talvez com os ajustes que nós sugerimos.

Assim, a evidência até agora de percepção verídica durante a NDE/OBE é forte, mas a veracidade não tem sido de modo algum demonstrada conclusivamente. Não obstante, o que foi até agora demonstrado fortemente sugere que a consciência do NDEr opera completamente independentemente do corpo durante a OBE NDE.

Comparação com outros tipos de OBEs

A experiência fora-do-corpo, onde alguém sente que o centro de consciência está localizado fora do corpo físico, não é única da NDEs. Além de sua existência em NDEs, as OBEs podem ser experimentadas espontaneamente, voluntariamente ou auto-produzidas, induzidas com hipnose, com estímulo elétrico da junção têmporo-parietal direita do córtex cerebral, com o uso de drogas tal como cânhamo, psicodélicos e quetamina, e podem aparecer em conexão aos sonhos, paralisia de sono e depressão (Blackmore, 1982 & 1992). Blackmore calculou que as OBEs ocorrem em aproximadamente 10% da população, embora outros pesquisadores tendam a pôr o valor mais alto.

As características de fenomenológicas e qualidades das OBEs aparentam diferir dependendo de como a OBE se originou. Em particular, a NDE/OBE tem várias características que a distinguem de outros tipos de OBEs:

O OBEr da NDE está numa crise médica que traz a pessoa próxima da morte ou quando uma pessoa experimenta um perigo físico intenso ou emotivo comparado com outras condições prévias em que OBEs ocorrem. Em contraste, os outros OBErs geralmente estão relaxados fisicamente, mentalmente tranqüilos e pode estar sonhando (Twemlow, Gabbard, e Jones, 1982).

O OBEr da NDE geralmente irá experimentar provavelmente mais os outros aspectos da NDE do que os outros OBErs, tal como ouvir um barulho no início da experiência, ver seu corpo físico a distância, viajar por um túnel, vendo outros seres em forma não material e encontrar-se com um ser de luz (Gabbard, Twemlow, e Jones, 1981).

A veracidade das percepções na OBE NDE, quando checadas informalmente, quase sempre é verificada (isto é, relatórios de percepções não-verídicas são raros), mas elementos não-verídicos, percepções fragmentárias ou deturpadas, qualidades hipnóticas ou alucinações completas são informadas em outros tipos de OBEs, tal como a OBE espontânea (Blackmore, 1983), OBE induzida por estímulo elétrico do cérebro ou doença do lobo temporal (Blanke, Ortigue, Landis, e Seeck, 2002; Blanke, Landis, Spinelli, e Seeck, 2004), OBE intencional (Blackmore, 1982 & 1992), OBE induzida por quetamina (Jansen, 2000) e OBE induzida por paralisia do sono (Buzzi e Cirignotta, 2000; Terrillon e Marques-Bonham, 2001). Note que a veracidade das OBEs NDE não foram demonstradas conclusivamente (veja seção prévia).

Até agora, pesquisadores não estabeleceram uma tipologia coerente ou escala para OBEs (Alvarado, 1997). Enquanto geralmente é concordado que essas NDE/OBEs são diferentes de outros tipos de OBE (Gabbard e Twemlow, 1984), Carlos Alvarado (2000) salientou que essa maioria, se não todas, as pesquisas de OBE incluíram alguns casos de OBE NDE nos resultados. Estas inclusões provavelmente mascararam diferenças fenomenológicas entre os dois tipos diferentes de OBE.

Em contraste com outros tipos de OBE, a NDE como um todo, inclusive seu componente OBE, aparenta ser um fenômeno coesivo, onde todos os elementos estão juntos, mesmo que a NDE de uma pessoa em particular possa envolver só um subconjunto pequeno desses elementos. De fato, Rense Lange, Bruce Greyson e James Houran (2004) validaram a escala de NDE de Greyson (Greyson, 1983 & 1990) usando o modelo de escala de avaliação de Rasch (Rasch, 1980) e mostraram que a NDE, inclusive o componente OBE, é uma experiência de “âmago” que é coerente através de diferentes demografias e diferentes profundidades da NDE. O componente OBE NDE então difere de outras OBEs por causa de sua qualidade distinta como parte da NDE total.

Uma diferença interessante com a OBE NDE é o relacionamento da consciência da pessoa com o corpo físico. O NDEr tipicamente está inconsciente e perto de morte ou está clinicamente morto, ao passo que todos os outros tipos de OBErs estão conscientes dentro do corpo antes da OBE. (Protelaremos o caso das NDEs antecipatórias por enquanto). Aliás, em alguns casos, o OBEr permanece ligado ao corpo físico até certo ponto durante a OBE, isto é, conversa com mais alguém num aposento, desce a rua, dança ou atua num palco, está sob hipnose, sonha, etc. Assim, durante as não-OBE NDE, alguma parte da consciência do OBEr ainda está associada com o corpo físico. Aliás, em muitos de tais casos, a consciência aparenta estar dividida entre o corpo físico e o “corpo” fora-do-corpo. Em contraste, na OBE NDE, a consciência dentro do corpo está severamente comprometida: o NDEr pode estar vivo, mas está completamente inconsciente ou está clinicamente morto.

Sugerimos que a diferença fenomenológica entre NDE/OBEs e outros tipos de OBE é devido ao grau de “conexão” aparente da consciência com o corpo, ou posto de outra maneira, o grau de “separação” aparente da consciência do corpo. A NDE/OBE mostra uma “separação” maior que resulta em mais supostamente verídicas percepções fora-do-corpo, e esse grau de “separação” ocasiona os aspectos posteriores da NDE (o túnel, a luz brilhante, etc.). Outros tipos de OBE podem variar mas com menores graus de “separação” do corpo e tipicamente tem menos percepções verídicas fora-do-corpo (mostrando alguns elementos de não-verídicos, ou mesmo completamente não-verídicos ou percepções alucinatórias), e nenhum dos outros aspectos da seguintes da NDE. A NDE preventiva pode ocorrer porque as circunstâncias que a desencadeiam, a ameaça percebida de ferimento severo e inevitável ou morte, são tão extremos que uma NDE ocorre. Isto é coerente com os resultados de Owens, Cook e Stevenson (1990) que NDErs que não estavam de fato próximos da morte, continuaram geralmente a reportar que eles sentiram que estavam perto de morte ou mortos no momento. Estes NDErs experimentaram uma OBE na mesma proporção que esses NDErs que estavam perto de morte, mas não experimentaram outros elementos da NDE que são associados com experiências mais “profundas” (uma luz brilhante, um túnel, uma revisão de vida, etc.).

Assim, a comparação da NDE/OBE com outros tipos de OBEs sugere que a consciência do OBEr NDE se separa em um grande grau do corpo físico, mais que os outros tipos de OBE. Se a separação da consciência do cérebro e do corpo está acontecendo de fato, o grau de separação e o processo de separação são provavelmente diferentes entre os tipos diferentes de OBEs.

Fenomenologia da OBE NDE

É importante para a presente discussão desenvolver a fenomenologia da OBE NDE mais plenamente e em mais detalhe das várias descrições fenomenológicas gerais da NDE, tal como em Raymond Moody (1975), Moody e Paul Perry (1988), Bruce Greyson e Ian Stevenson (1980), Michael Sabom (1982), Evelyn Valarino (1997), e Kenneth Ring e Sharon Cooper (1999), e de casos individuais de NDE na literatura. Observando especificamente o componente NDE/OBE, nós encontramos:

O processo de deixar o corpo normalmente é acompanhado por sensações de formigamento ou um assobio ou som de whooshing. Não aparenta ser uma parte consistente do corpo por que o corpo não material deixa o corpo físico. Alguns OBErs NDE observam um fio fino ou cordão unindo seu corpo não material ao corpo físico.

O locus da consciência muda de dentro do corpo físico para fora dele e aparenta ter uma existência independente. O OBEr NDE geralmente pode perceber seus arredores físicos imediatos, inclusive seu corpo físico, com uma perspectiva de cerca de 8 pés acima. Há uma continuidade da sensação do self do indivíduo que continua desde o corpo, para fora do corpo e então de volta ao corpo. Há uma continuidade de memória também. O indivíduo sente ser a mesma pessoa por toda a experiência.

  O indivíduo não sente nenhuma dor, como na dor corpórea física, mesmo quando procedimentos médicos dolorosos são executados no corpo (Sabom, 1982, p. 100). No entanto, durante certos tipos de NDEs infernais, o indivíduo aparentemente pode experimentar ferida ao “corpo” não material e dor emotiva (Storm, 2000, p. 20; Dovel, 2003, p. 87). O indivíduo se sente sem peso e infatigável, e está completamente em paz. Tem o sentimento que foi libertado do corpo e há normalmente júbilo nesse sentido de liberdade.

Cerca de 58% dos indivíduos informam que têm algum tipo de corpo não material durante a NDE (Greyson e Stevenson, 1980), ou formado como o corpo físico ou como uma esfera ou ovóide (Lundahl e Widdison, 1997, p. 108). Para outros, sua consciência parece ser um único ponto ou foco. Um número inesperado de pessoas que tiveram sua NDE durante a infância ou adolescência relatam que elas ficaram adultos durante sua NDE (Moody e Perry, 1988, pp. 74-76). Outros informam que sua OBE NDE foi experimentada quando criança, mas sua experiência parece ter sido de uma perspectiva adulta, com percepção plenamente desenvolvida, memória e pensamento (Atwater e Morgan, 2000, p. 55).

Defeitos estruturais ou sensoriomotores ou incapacidades tais como cegueira, surdez, manqueira ou membros perdidos estão ausentes na maioria das NDErs, mas não em todos casos. Num estudo, mais de 60 NDErs informaram como tendo um “corpo” não material, 46 não tinham nenhum defeito preexistente, 12 informaram que tais defeitos estavam ausentes, enquanto 2 informaram que tais defeitos estavam ainda presentes (Greyson e Stevenson, 1980). Os NDErs que são cegos ou visualmente prejudicados geralmente acham que eles não têm mais defeitos visuais durante a NDE (Ring e Cooper, 1997).

Os sentidos ordinários mentais e cognitivos de percepção, pensamento, vontade, memória, sentimentos e consciência estão presentes, embora às vezes de forma modificada como são detalhados abaixo. Há aumentada clareza de pensamento, percepção e memória, com processos mentais lúcidos quando separados do corpo. A própria vontade do NDEr opera sem qualquer constrangimento ou limitação do corpo físico. O indivíduo pode se movimentar diretamente simplesmente pensando ou desejando e então se move muito rapidamente ou, aparentemente, instantaneamente.

O indivíduo tem percepção visual, mas a percepção tem acuidade bastante aumentada em relação ao corpo. A visão durante a OBE NDE parece ainda exigir luz (Ritchie, 1978, p. 37). O OBEr NDE também tem uma espécie de visão “esférica”, em que pode ver 360 graus ao redor de um objeto, por ele e dentro dele simultaneamente (Benedict, 1996, p. 42; Ring e Cooper, 1999, p. 162). A visão esférica parece operar facilmente. A acuidade visual e visão esférica provavelmente é parcialmente explicada pela capacidade do NDEr de focalizar sua atenção sem as limitações dos olhos físicos ou a limitação de uma perspectiva particular ditada pela posição do corpo físico. A visão durante a OBE NDE parece ser uma forma especial de percepção, um tipo de visão e conhecimento simultâneos, que foram denominados “visão mental” por Ring e Cooper (1999).

A percepção visual também parece funcionar para objetos não visíveis a visão física ordinária. O OBEr NDE às vezes pode ver o próprio “corpo” não material, tal como os seus membros e roupa, e mesmo descrever detalhes da estrutura do membro (Moody e Perry, 1988, p. 10). O NDEr pode ver outros indivíduos que também estão fora-do-corpo durante a NDE nas então chamadas NDEs de “grupo” (Eulitt e Hoyer, 2001; Gibson, 1999, p. 128). Estes companheiros NDErs também parecem ter uma forma corpórea.

O indivíduo às vezes pode ouvir sons físicos tal como os bipes de máquinas de monitoramento ou o zumbido de luzes fluorescentes, mas muitos relatam não ouvir nada no ambiente físico imediato. O indivíduo também pode “ouvir” as pessoas falar via transferência de pensamento ou telepatia.

Alguns indivíduos informam que podem perceber a textura de superfícies de objetos por toque, ou que parece haver uma resistência leve em atravessar objetos sólidos, mas em geral não há nenhuma interação entre o “corpo” do NDEr e objetos físicos. O “corpo” do NDEr parece ser completamente não material. O NDEr não pode ser ouvido quando fala e é invisível à visão ordinária.

  O processo de retornar a corpo pode ser um retorno gradual, tal como andar de volta ou cair pelo túnel, ou um rápido estalar de volta ao corpo, ou simplesmente acordar instantaneamente de volta ao corpo. A perspectiva auto-consciente então retorna a estar dentro do corpo físico. A memória do indivíduo da NDE e acontecimentos de OBE estão geralmente muito nítidas e de longa duração após retornar ao corpo.

A Tabela 1 sumariza uma comparação dos sentidos geralmente associados com a OBE NDE com os do corpo físico. A gestalt geral da NDE/OBE é que o indivíduo possui todos os sentidos perceptivos, mentais, volitivos, emotivos e de memória como dentro do corpo e freqüentemente retém uma forma espacial embora não material. Contudo alguns dos sentidos são aumentados, principalmente pelo libertar do corpo. Quando o OBEr NDE retorna ao corpo, todas as características do corpo retornam: peso, fadiga, dor física, e incapacidades físicas. A consciência de corpórea do indivíduo é restaurada e pode operar como uma pessoa fisicamente personificada outra vez.

Tabela 1
Sumário das faculdades e atributos associados com experiências fora e dentro do corpo
Faculdade ou atributo    Fora do corpo    Dentro do corpo
Visão    Sim, acuidade aumentada, 360 graus    Sim
Audição    Sim, em alguns casos ou por telepatia    Sim
Desejo, intenção, volição    Sim, parece funcionar instantaneamente    Sim, funciona pelo movimento corporal
Emoções, sentimentos, consciência    Sim    Sim
Pensamento    Sim    Sim
Memória    Sim    Sim
Forma Espacial    Frequentemente (a forma lembrando a do corpo)    Sim
Materialidade física, peso    Não    Sim
Dor física    Não    Sim
Cansaço    Não    Sim
Incapacidades físicas    Não    Sim, se incapacidades estão presentes
Interação com objetos físicos    Não, nenhum discurso audível    Sim

Assim, o indivíduo durante a NDE/OBE parece ser como um ser humano completo, o mesmo ser humano como era presente antes da NDE, com exceção do corpo físico. O fenômeno da separação aparente de consciência na NDE/OBE é uma experiência coerente e auto-consistente, que implica numa separação de fato da consciência do corpo físico.

A Mente Auto-Consciente Independente

A OBE NDE fortemente sugere que essa consciência opera completamente independente do corpo e ainda possui todos os sentidos e atributos de consciência ordinária no corpo, a saber, percepção, volição, sentimentos, pensamentos, memória e consciência. Em casos de parada cardíaca especialmente, pode ser demonstrado que não há funcionamento fisiológico do cérebro, nem do tronco cerebral durante as porções significativas do OBE. Além do mais, a qualidade da consciência não é diminuída durante a OBE, como num estado similar ao sonho, mas está geralmente mais nítida e intensa que a consciência da vigília ordinária.

As transições para fora do corpo e de volta ao corpo ocorrem continuamente, isto é, havendo um senso contínuo de individualidade e memória por ambas as transições. O experienciador sente a si mesmo estando no mesmo self, transitando fora do corpo, assim como retornando a ele, tendo as mesmas memórias. As memórias de acontecimentos experimentados enquanto fora do corpo são integrados continuamente com as memórias do experimentador ocorrendo ambos antes e depois da NDE. Em resumo, a auto-consciência do experienciador, ou senso de si, é sentido como inteiramente o mesmo antes, durante e depois da NDE. A experiência é de um self consciente unificado pela experiência de quase-morte, como em qualquer outra experiência significativa de vida.

Especificamente, o componente OBE da NDE fornece quatro fenômenos básicos que fortemente sugerem que durante a NDE, a consciência do indivíduo opera completamente independentemente do corpo com todos seus sentidos normais e atribuições íntegras. (1) O fenômeno da NDE durante a parada cardíaca, que demonstra uma continuidade de consciência, inclusive com experiências verídicas fora-do-corpo, durante períodos de isoeletricidade cerebral global, fortemente sugere que essa consciência continua mesmo sem nenhuma função elétrica de cérebro. (2) O fenômeno da percepção de verídica durante a NDE/OBE, que só poderia ter ocorrido se consciência tivesse operado numa situação distante do corpo, fortemente sugere essa consciência se separa e pode operar independentemente do corpo. (3) Comparação da NDE/OBE com outros tipos de OBEs (espontânea, desejada, induzida por hipnose, estímulo elétrico de cérebro ou drogas, etc.) sugere que há um relacionamento entre o grau de separação aparente do corpo na NDE/OBE e as percepções verídicas que são experimentados, quando comparada com outros tipos de OBEs. (4) A fenomenologia coerente e auto-consistente da NDE/OBE sugere que o mesmo ser humano existe fora do corpo durante a NDE, libertado das limitações e constrangimentos do corpo durante este tempo e existe dentro do corpo antes e depois da NDE.

Estes fenômenos, tomados junto, fortemente sugerem que nossa consciência é uma entidade em si, que nós sugerimos chamar a mente auto-consciente independente. Durante a NDE/OBE, a mente auto-consciente opera como um independente “campo de consciência”, isso é, há um locus particular da consciência do experimentador e, geralmente, uma organização espacial. (Um “campo” neste sentido é uma área ou região de espaço que tem propriedades específicas). A mente auto-consciente (SCM) pode operar completamente independente da operação do corpo e do cérebro, com um sentido contínuo de individualidade e memória por transições para fora do corpo e de volta ao corpo.

No entanto, durante consciência ordinária no corpo, a mente auto-consciente é unida com o corpo e o cérebro. Enquanto no nosso corpo, o cérebro media todos os nossos sentidos cognitivos. Observamos que quando a atividade elétrica normal do cérebro é significativamente alterada como em sono, anestesia, coma ou trauma, nós tornamos inconscientes; danos à órgão dos sentidos ou as regiões sensórias do córtex resultam numa perda de percepção; danos a outras áreas do córtex semelhantemente resulta em paralisia, ataxia, afasia, perda de compreensão de fala, perturbação de formação de memória ou recordação, e assim por diante. Quando o SCM está no corpo, parece ser mantida aí fortemente. Cerca de 70% das pessoas que experimentam trauma severo, tal como alguém esperaria que uma NDE ocorresse, experimenta apenas perda de consciência, e não uma separação do SCM do corpo. A mente auto-consciente não material é, ordinariamente, unida ou é integrado intimamente com o corpo e o cérebro, e, portanto deve se conectar por interface de alguma maneira com o cérebro e mediado pelo corpo. A mediação com o corpo deve tomar a forma de algum tipo de indução mútua entre a mente e o cérebro.

Num texto subseqüente (Mays e Mays, 2007), expandiremos em detalhes esta visão, usando o texto presente como o ponto de partida. Endereçamos entre outras coisas:
Evidência Neurológica que é auxiliar da visão presente
Semelhanças e diferenças entre a vista presente, o modelo dualista interacionista proposto por Karl Popper e John Eccles (1977), e o Campo Mental Consciente de Benjamin Libet (2004)
  Outros fenômenos neurológicos que podem ser explicados com a vista presente, inclusive a consciência anômala retardada da ação intencional de Libet, fenômenos de cérebro dividido e fenômenos de membro fantasma
Mecanismos para interações mente-cérebro com observações preliminares em fenômenos que sugerem possíveis maneiras de como a mente auto-consciente não material e o cérebro poderiam se conectar por interface.

Em resumo, na visão presente, o fenômeno da NDE/OBE com percepções verídicas do arredores demonstra a existência da mente auto-consciente independente, separada do corpo físico. No estado fora-do-corpo, a mente está completamente independente do corpo e é não material até onde pode ser determinado. No entanto, durante consciência ordinária no corpo, a mente auto-consciente é unida com o corpo e cérebro e o cérebro media nossos sentidos cognitivos e nossa auto-consciência usando alguma forma de interface de mente-cérebro. Esta visão é apoiada pela evidência fenomenológica da NDE/OBE discutida no presente texto. Evidência adicional posterior, obtidas de fenômenos neurológicos diferentes será apresentada num texto subseqüente.

Referências

Alvarado, C. S. (1997). Mapping the characteristics of out-of-body experiences. The Journal of the American Society for Psychical Research, 91, 15-32.
Alvarado, C. S. (2000). Out-of-body experiences. In Cardeña, E., Lynn, S. J., and Krippner, S. (Eds.), Varieties of anômalos experience: examining the scientific evidence (pp. 315-352). Washington, DC: American Psychological Association.
Ames, A., 3rd, Wright, R. L., Kowada, M., Thurston, J. M., and Majno, G. (1968). Cerebral ischemia. II. The no-reflow phenomenon. The American Journal of Pathology, 52, 437-453.
Aminoff, M. J., Scheinman, M. M., Griffin, J. C., and Herre, J. M. (1988). Electrocerebral accompaniments of syncope associated with malignant ventricular arrhythmias. Annals of Internal Medicine, 108, 791-796.
Atwater, P. M. H., and Morgan, D. H. (2000). The complete idiot’s guide to near-death experiences. New York, NY: Alpha Books, Penguin Group (USA).
Benedict, M.-T. (1996). Through the light and beyond. In Bailey, L. W., and Yates, J. (Eds.), The near-death experience: a reader (pp. 39-52). New York, NY: Routledge.
Blackmore, S. (1982 & 1992). Beyond the body: an investigation of out-of-the-body experiences with a new postscript by the author. Chicago, IL: Academy Chicago Publishers.
Blackmore, S. (1983). Are out-of-body experiences evidence for survival? Anabiosis – The Journal for Near-Death Studies, 3, 137-155.
Blackmore, S. (1993). Dying to live: near-death experiences. Buffalo, NY: Prometheus Books.
Blackmore, S. (2004). Consciousness: an introduction. New York, NY: Oxford University Press.
Blackmore, S. (2006). Conversations on consciousness: what the best minds think about the brain, free will, and what it means to be human. New York, NY: Oxford University Press.
Blanke, O., Ortigue, S., Landis, T., and Seeck, M. (2002). Stimulating illusory own-body perceptions. Nature, 419, 269-270.
Blanke, O., Landis, T., Spinelli, L., and Seeck, M. (2004). Out-of-body experience and autoscopy of neurological origin. Brain, 127, 243-258.
Brenner, R. P. (1997). Electroencephalography in syncope. Journal of Clinical Neurophysiology, 14, 197-209.
Bortoft, H. (1996). The wholeness of nature: Goethe’s way toward a science of conscious participation in nature. Hudson, NY: Lindisfarne Press.
Buunk, G., van der Hoeven, J. G., and Meinders, A. E. (2000). Cerebral blood flow after cardiac arrest. The Netherlands Journal of Medicine, 57, 106-112.
Buzzi, G., and Cirignotta, F. (2000). Isolated sleep paralysis: a web survey. Sleep Research Online, 3, 61-66.
Clark, K. (1984). Clinical interventions with near-death experiencers. In Greyson, B., and Flynn, C. P. (Eds.), The near-death experience: problems, prospects, perspectives (pp. 242-255). Springfield, IL: Charles C. Thomas.
Clute, H. L., and Levy, W. J. (1990). Electroencephalographic changes during brief cardiac arrest in humans. Anesthesiology, 73, 821-825.
Cook, E. W., Greyson, B., and Stevenson, I. (1998). Do any near-death experiences provide evidence for the survival of human personality after death? Relevant features and illustrative case reports. Journal of Scientific Exploration, 12, 377-406.
de Vries, J. W., Visser, G. H., and Bakker, P. F. A. (1997). Neuromonitoring in defibrillation threshold testing. A comparison between EEG, near-infrared spectroscopy and jugular bulb oximetry. Journal of Clinical Monitoring, 13, 303-307.
de Vries, J. W., Bakker, P. F. A., Visser, G. H., Diephuis, J. C., and van Huffelen, A. C. (1998). Changes in cerebral oxygen uptake and cerebral electrical activity during defibrillation threshold testing. Anesthesia and Analgesia, 87, 16-20.
Dougherty, C. M. (1994). Longitudinal recovery following sudden cardiac arrest and internal cardioverter defibrillator implantation: survivors and their families. American Journal of Critical Care, 3, 145-154.
Dovel, M. D. (2003). My last breath. Baltimore, MD: PublishAmerica.
Eulitt, M., and Hoyer, S. (2001). Fireweaver: the story of a life, a near-death, and beyond. Philadelphia, PA: Xlibris.
Fujioka, M., Nishio, K., Miyamoto, S., Hiramatsu, K. I., Sakaki, T., Okuchi, K., Taoka, T. and Fujioka, S. (2000). Hippocampal damage in the human brain after cardiac arrest [abstract]. Cerebrovascular Diseases, 10, 2-7.
Gabbard, G. O., Twemlow, S. W., and Jones, F. C. (1981). Do “near death experiences” occur only near death? The Journal of Nervous and Mental Disease, 169, 374-377.
Gabbard, G. O., and Twemlow, S. W. (1984). With the eyes of the mind: an empirical analysis of out-of-body states. New York, NY: Praeger Publishing Company.
Gallup, G., and Proctor, W. (1982). Adventures in immortality. New York, NY: McGraw-Hill.
Gibson, A. S. (1999). Fingerprints of God: evidences from near-death studies, scientific research on creation, and Mormon theology. Bountiful, UT: Horizon Publishers.
Gopalan, K. T., Lee, J., Ikeda, S., and Burch, C. M. (1999). Cerebral blood flow velocity during repeatedly induced ventricular fibrillation. Journal of Clinical Anesthesia, 11, 290-295.
Greyson, B. (1983). The near-death experience scale: construction, reliability, and validity. The Journal of Nervous and Mental Disease, 171, 369-375.
Greyson, B. (1990). Near-death encounters with and without near-death experiences: comparative NDE profiles. Journal of Near-Death Studies, 8, 151-161.
Greyson, B. (1998). Biological aspects of near-death experiences. Perspectives in Biology and Medicine, 42, 14-32.
Greyson, B. (2000a). Near-death experiences. In Cardeña, E., Lynn, S. J., and Krippner, S. (Eds.), Varieties of anômalos experience: examining the scientific evidence (pp. 315-352). Washington, DC: American Psychological Association.
Greyson, B. (2000b). Dissociation in people who have near-death experiences: out of their bodies or out of their minds? The Lancet, 355, 460-463.
Greyson, B. (2003). Incidence and correlates of near-death experiences in a cardiac care unit. General Hospital Psychiatry, 25, 269-276.
Greyson, B., and Stevenson, I. (1980). The phenomenology of near-death experiences. American Journal of Psychiatry, 137, 1193-1196.
Herlitz, J., Bång, A., Aune, S., Ekström, L., Lundström, G., and Holmberg, S. (2001). Characteristics and outcome among patients suffering in-hospital cardiac arrest in monitored and non-monitored areas. Resuscitation, 48, 125-135.
Jansen, K. L. R. (2000). Ketamine: dreams and realities. Sarasota, FL: Multidisciplinary Association for Psychedelic Studies (MAPS).
Kågström, E., Smith, D. L., and Siesjö, B. K. (1983). Local cerebral blood flow in the recovery period following complete cerebral ischemia in the rat. Journal of Cerebral Blood Flow and Metabolism, 3, 170-182.
Kelly, E. W., Greyson, B., and Stevenson, I. (1999-2000). Can experiences near death furnish evidence of life after death? Omega, 40, 513-519.
Kinney, H. C., Korein, J., Panigrahy, A., Kikkes, P., and Goode, R. (1994). Neuropathological findings in the brain of Karen Ann Quinlan. The New England Journal of Medicine, 330, 1469-1475.
Lange, R., Greyson, B., and Houran, J. (2004). A Rasch scaling validation of a ‘core’ near-death experience. British Journal of Psychology, 95, 161-177.
Libet, B. (2004). Mind time: the temporal factor in consciousness. Cambridge, MA: Harvard University Press.
Losasso, T. J., Muzzi, D. A., Meyer, F. B., and Sharbrough, F. W. (1992). Electroencephalographic monitoring of cerebral function during asystole and successful cardiopulmonary resuscitation. Anesthesia and Analgesia, 75, 1021-1024.
Lundahl, C. R., and Widdison, H. A. (1997). The eternal journey: how near-death experiences illuminate our earthly lives. New York, NY: Warner Books.
Mays, R. G., and Mays, S. B. (2007). The phenomenology of the independent self-conscious mind. Journal of Near-Death Studies, to be published.
Moody, Jr., R. A. (1975). Life after life: the investigation of a phenomenon – survival of bodily death. New York, NY: Bantam Books.
Moody, Jr., R. A. and Perry, P. (1988). The light beyond. New York, NY: Bantam Books.
Owens, J. E., Cook, E. W., and Stevenson, I. (1990). Features of “near-death experience” in relation to whether or not patients were near death. The Lancet, 336, 1175-1177.
Parnia, S. (2006). What happens when we die. Carlsbad, CA: Hay House.
Parnia, S., and Fenwick, P. (2002). Near death experiences in cardiac arrest: visions of a dying brain or visions of a new science of consciousness. Resuscitation, 52, 5-11.
Parnia, S., Waller, D. G., Yeates, R., and Fenwick, P. (2001). A qualitative and quantitative study of the incidence, features and aetiology of near death experiences in cardiac arrest survivors. Resuscitation, 48, 149-156.
Popper, K. R., and Eccles, J. C. (1977). The self and its brain: an argument for interactionism. London: Routledge.
Rasch, G. (1980). Probabilistic models for some intelligence and attainment tests. Chicago, IL: The University of Chicago Press.
Ring, K. (1980). Life at death: a scientific investigation of the near-death experience. New York, NY: Coward, McCann and Geoghegan.
Ring, K., and Cooper, S. (1997). Near-death and out-of-body experiences in the blind: a study of apparent eyeless vision. Journal of Near-Death Studies, 16, 101-147.
Ring, K., and Valarino, E. E. (1998). Lessons from the light: what we can learn from the near-death experience. Needham, MA: Moment Point Press.
Ring, K., and Cooper, S. (1999). Mindsight: near-death and out-of-body experiences in the blind. Palo Alto, CA: William James Center for Consciousness Studies.
Ritchie, G. G., and Sherrill, E. (1978). Return from tomorrow. Waco, TX: Chosen Books.
Ritchie, G. G. (1998). Ordered to return: my life after dying. Charlottesville, VA: Hampton Roads Publishing Company.
Sabom, M. B. (1982). Recollections of death: a medical investigation. New York, NY: Harper and Row.
Sabom, M. B. (1998). Light at death: one doctor’s fascinating account of near-death experiences. Grand Rapids, MI: Zondervan Publishing House.
Sauvé, M. J., Walker, J. A., Massa, S. M., Winkle, R. A., and Scheinman, M. M. (1996). Patterns of cognitive recovery in sudden cardiac arrest survivors: the pilot study. Heart and Lung, 25, 172-181.
Schwaninger, J., Eisenberg, P. R., Schechtman, K. B., and Weiss, A. N. (2002). A prospective analysis of near-death experiences in cardiac arrest patients. Journal of Near-Death Studies, 20, 215-232.
Sharp, K. C. (1995). After the light: what I discovered on the other side of life that can change your world. New York, NY: Authors Choice Press.
Smith, D. S., Levy, W., Maris, M., and Chance, B. (1990). Reperfusion hyperoxia in brain after circulatory arrest in humans. Anesthesiology, 73, 12-19.
Spetzler, R. F., Hadley, M. N., Rigamonti, D., Carter, L. P., Raudzens, P. A., Shedd, S. A., and Wilkinson, E. (1988).
Aneurysms of the basilar artery treated with circulatory arrest, hypothermia, and barbiturate cerebral protection. Journal of Neurosurgery, 68, 868-879.
Storm, H. (2000). My descent into death: and the message of love which brought me back. London: Claireview Books.
Terrillon, J.-C., and Marques-Bonham, S. (2001). Does recurrent isolated sleep paralysis involve more than cognitive neuroscience? Journal of Scientific Exploration, 15, 97-123.
Twemlow, S. W., Gabbard, G. O., and Jones, F. C. (1982). The out-of-body experience: a phenomenological typology based on questionnaire responses. American Journal of Psychiatry, 139, 450-455.
Valarino, E. E. (1997). On the other side of life: exploring the phenomenon of the near-death experience. New York, NY: Plenum Press.
van Lommel, P. (2006). Near-death experience, consciousness and the brain. A new concept about the continuity of our consciousness based on recent scientific research on near-death experience in survivors of cardiac arrest. World Futures, 62, 134-151.
van Lommel, P., van Wees, R., Meyers, V., and Elfferich, I. (2001). Near-death experience in survivors of cardiac arrest: a prospective study in the Netherlands. The Lancet, 358, 2039-2045.
Varela, F. J. (1996). Neurophenomenology: a methodological remedy for the hard problem. Journal of Consciousness Studies, 3, 330-349.
Visser, G. H., Wieneke, G. H., van Huffelen, A. C., de Vries, J. W., and Bakker, P. F. A. (2001). The development of spectral EEG changes during short periods of circulatory arrest. Journal of Clinical Neurophysiology, 18, 169-177.
Vriens, E. M., Bakker, P. F. A., de Vries, J. W., Wieneke, G. H., and van Huffelen, A. C. (1996). The impact of repeated short episodes of circulatory arrest on cerebral function. Reassuring electroencephalographic (EEG) findings during defibrillation threshold testing at defibrillator implantation. Electroencephalography and Clinical Neurophysiology, 98,
236-242.
Zajonc, A. (1999). Goethe and the phenomenological investigation of consciousness. In Hameroff, S. R., Kaszniak, A. W., and Chalmers, D. J. (Eds.), Toward a science of consciousness III: the third Tucson discussions and debates. Cambridge,MA: The MIT Press.

Excesso de Rigor Científico Também Faz Mal

2 comentários
Por Vitor Moura Visoni.

Algumas pessoas acreditam que toda e qualquer alegação que mude os atuais paradigmas vigentes na Ciência precisa passar pelo método científico. E o método científico é restritivo, cuidadoso, extremamente detalhista e exigente. Apenas passando por todo este rigor é que uma evidência a favor da hipótese original poderá ser aceita.

Estas pessoas estão certas.

A questão é: o que define o quão rigoroso o método científico deve ser? E a resposta é: nada.

Céticos costumam dizer que alegações extraordinárias exigem evidências extraordinárias, assim, o rigor tem que ser diretamente proporcional ao que é alegado: quanto mais extraordinária a alegação, mais extraordinária deve ser a prova. O problema é que o conceito de “extraordinário” é subjetivo, variando de pessoa para pessoa. Assim, o valor necessário da prova também será subjetivo. Na dúvida, alegam que o rigor deve ser o maior possível.

O problema desse pensamento é que é sempre possível exigir cada vez mais e mais rigor, e nenhuma evidência será suficiente, o que causará a estagnação da Ciência. Um exemplo é o da descoberta das luas de Júpiter.

Em 1610, Galileu Galilei publicou a obra “Sidereus Nuntius” (“Mensageiro Celeste” ou “Mensageiro das Estrelas”), na qual, entre outras coisas, revelava a existência de 4 satélites ao redor de Júpiter. Para a época foi algo considerado extraordinário. Suas descobertas o levaram a adotar o sistema heliocêntrio de Copérnico, que desafiava completamente o paradigma vigente à época. Bem, o que aconteceu então?

Os adversários de Galileu insistiam em que as manchas que ele tinha interpretado como as luas de Júpiter eram aberrações atribuíveis ao funcionamento do telescópio. Galileu defendeu sua proposição sobre a visibilidade das luas de Júpiter argumentando que, se as luas fossem aberrações, então deveriam aparecer luas perto dos outros planetas também. O debate público continuou, e, neste caso específico, conforme os telescópios foram aperfeiçoados e a teoria ótica desenvolvida, a proposição de observação referente às luas de Júpiter sobreviveu à crítica que lhe era dirigida. A maioria dos cientistas finalmente decidiu aceitar a afirmação. ¹

Conta-se que o rigor de seus inimigos foi tão grande que eles teriam dito que só acreditariam na existência dos satélites de Júpiter caso colocassem seus pés neles. Imaginem se fôssemos usar desse rigor para aceitar a alegação extraordinária de Galileu. Embora as viagens interplanetárias tripuladas sejam teoricamente possíveis hoje, mesmo 400 anos depois de suas observações não teríamos qualquer evidência dos satélites de Júpiter e a Terra ainda seria considerada o centro do nosso sistema!

Uma boa maneira de se auferir se a Parapsicologia obedece aos rigores do método científico é compará-la com outras áreas da Ciência. Tomemos a Farmacologia para nossa análise. Neste ramo, usam-se dois padrões para se testar a eficácia de um medicamento: aquilo que chamaremos de padrão prata (p < .05) e de padrão ouro (p< .01). Esses padrões dizem respeito à probabilidade de um resultado ser devido ao acaso. Caso os resultados dos testes se situem abaixo ou entre essas probabilidades, o medicamento é considerado eficaz. É usado um grupo controle para se comparar os efeitos do medicamento contra o efeito placebo. Os testes também devem ser feitos em condições de duplo-cego, para se evitar o chamado “efeito do experimentador”. Evidentemente, além disso, exige-se certa replicação para se evitar outras questões como fraude e efeito gaveta. E na Parapsicologia? Nas experiências com cartões de PES, por exemplo, o parapsicólogo Dean Radin afirma que estudos rigorosamente controlados tinham probabilidades de ocorrência reais versus casuais de 375 trilhões contra uma:
Algumas pessoas parecem acreditar que os resultados de Rhine com os cartões de PES foram desmitificados como sendo devidos à utilização de métodos defeituosos, fraude ou intervenção de pura sorte. Isso não é verdadeiro. Praticamente todas as críticas propostas para negar os resultados de Rhine, desde defeitos nos cartões até o uso de métodos estatísticos inadequados, foram por demais discutidas na literatura relevante. Alguns propuseram que a prática de relatos seletivos, isto é, publicar somente os estudos bem-sucedidos e arquivar os fracassos poderia explicar os resultados gerais desses testes. Mas as análises demonstram que os resultados combinados das 188 experiências descritas por Rhine em seu livro de 1940, “Extrasensory perception after sixty years”, se acham tão distantes da possível intervenção da sorte cega, que seriam necessários 428 mil estudos não relatados para eliminar os resultados das 188 experiências descritas. Considerando que foram utilizados 60 anos para produzir essas 188 experiências, ou cerca de três estudos anuais, nesse ritmo os estudos faltantes teriam levado 137 mil anos para serem produzidos. Proponho que seja concebível que os nossos antepassados diretos, os homens de Cro-Magnon, tivessem se ocupado com freqüência, durante a era paleolítica, na condução de experiências fracassadas de PES e não puderam nos comunicar os resultados porque ainda não haviam inventado a escrita. No entanto, acho que isso é levar as coisas um pouco longe demais.²
Radin nos apresenta a seguinte tabela³:

Acredito que tais probabilidades demonstram que o padrão diamante foi plenamente satisfeito em quase todas as áreas de estudos. Nenhuma ficou abaixo do padrão ouro. Possibilidades de fraude, defeitos metodológicos e efeito gaveta também puderam ser seguramente descartadas. Acrescente-se ainda que a maioria dos estudos em Parapsicologia realizou-se em condições de duplo-cego, e outros, ainda, em condições de triplo-cego[4]. Todos obtiveram resultados positivos.

Alguns céticos já admitem que fenômenos paranormais foram comprovados cientificamente. Richard Wiseman, membro da maior organização de céticos do mundo, o CSI, declarou recentemente referindo-se aos testes de visão remota, vulgarmente conhecida como clarividência:
Eu concordo que pelos padrões de qualquer outra área da ciência, a visão remota estaria provada, mas isso levanta a seguinte pergunta: será que não precisamos de outros padrões de evidência ao se estudar o paranormal? Eu acho que precisamos.[5]

Padrões muito mais altos do que aqueles normalmente empregados pela Ciência foram e são utilizados em relação às alegações de fenômenos paranormais. Assim, o “argumento” da necessidade de um rigor extremo, brandida pelos céticos, muitas vezes exerce apenas a mesma e triste função da época de Galileu: manter os paradigmas científicos vigentes e conservar uma visão de mundo que, mais cedo ou mais tarde, cederá o seu lugar a outra.


[1] CHALMERS, Alan. “O que é Ciência, afinal?” (pgs. 92-93).

[2] Mentes Interligadas, Capítulo 5.

[3] Mentes Interligadas, Capítulo 14, Tabela 14-1

[4] Exemplos de estudos parapsicológicos que seguiram o protocolo triplo-cego:

a) Radin, D., Lund, N., Emoto, M., Kizu, T. (2008). Effects of distant intention on water crystal formation: A triple-blind replication. Journal of Scientific Exploration, 22(4), 481-493.

b) Beischel J, Schwartz GE. Anomalous information reception by research mediums demonstrated using a novel triple-blind protocol. EXPLORE: The Journal of Science & Healing. 2007; 3 (1):23-27. Disponível em http://www.explorejournal.com/article/PIIS155083070600454X/fulltext

[5] (Richard Wiseman, Daily Mail, “Could there be proof to the theory that we’re ALL psychic?”, January 28, 2008, pp 28-29)

Outro exemplo de desonestidade intelectual vinda de um ‘cético’.

0 comentários
Por Vitor Moura Visoni.
Na comunidade do Orkut Céticos S/A, entrei em discussão com mais um ‘cético’ sobre fenômenos paranormais, inclusive vida após a morte. O ‘cético’ se mostrou completamente ignorante do assunto ao qual pretendia debater. Entre as ‘pérolas’, pode-se encontrar:

Não existe ainda mente que não esteja sendo gerada pelos mecanicismos cerebrais e ninguém sério a trata de outra maneira. (grifos meus)

Aqui basta citar uma fonte que pense o contrário, e foi o que fiz. Para este artigo, entretanto, acrescentarei outras.

a) A Prospectively Studied Near-Death Experience with Corroborated Out-of-Body Perceptions and Unexplained Healing Penny Sartori, R.G.N, Ph.D., Paul Badham, Ph.D., and Peter Fenwick, M.B.B.Chir., D.P.M. Journal of Near-Death Studies, 25(2), Winter 2006, pp. 69-84.

b) About the Continuity of Our Consciousness by Pim van Lommel. Advances in Experimental Medicine and Biology 2004; 550: 115-132.

c) THE LANCET • Vol 358 • December 15, 2001. Near-death experience in survivors of cardiac arrest: a prospective study in the Netherlands. Pim van Lommel, Ruud van Wees, Vincent Meyers, Ingrid Elfferich.

d) Can Experiences Near Death Furnish Evidence of Life After death? (1999-2000) OMEGA, Vol. 40(4) 513-519 Emily Williams Kelly, Bruce Greyson, Ian Stevenson.

A titulo de ilustração, o último artigo diz:

EQM do tipo que descrevemos, juntamente com outros tipos de experiências sugerindo sobrevivência após a morte (ver, e.g., Gauld, 1982; Stevenson, 1987; Stevenson, 1997), oferecem convergente evidência que garante o fato de podermos levar a sério a idéia de que a consciência pode sobreviver à morte.

Não se dando por vencido, o cético propôs-me um desafio:

Faz o seguinte [...], como já repeti várias vezes, apenas apresenta uma provinha incontestável, em praça pública, em canal aberto de televisão, de: telepatia, espíritos, vida após a morte [...] que todo mundo lhe respeita.

E ainda repetiu o desafio.

Basta, repito, apresentar uma demonstração pública e repetitível [sic] de telepatia, espíritos [...].

Pois bem, aceitei o desafio, e escolhi o fenômeno da telepatia. Apresentei o estudo do biólogo Rupert Sheldrake de telepatia com animais, que foram filmados por uma rede de televisão e replicados inclusive por um cético, Richard Wiseman. O trecho abaixo foi extraído de “A Mente Ampliada”, do próprio Sheldrake:

O que vou lhes mostrar daqui a pouco é um vídeo de um desses experimentos que foi feito com um cachorro com que trabalhei principalmente na Inglaterra. O cachorro chama-se JT e o nome de sua dona é Pam. Quando Pam sai, ela deixa JT com seus pais, que vivem no apartamento ao lado do dela. Eles observaram há muitos anos que JT sempre ia para a janela quando Pam estava a caminho de casa, ou quase sempre. Esse experimento foi filmado profissionalmente pela televisão estatal austríaca, e por essa razão a trilha sonora é em alemão, embora seja um cachorro inglês. Portanto, eu explicarei o que está acontecendo em inglês para aqueles cujo alemão não é lá muito bom. O importante, aqui, é que o experimento foi genuíno.

Eu concordei em realizar esse experimento para a televisão estatal austríaca, se eles filmassem com duas câmeras, para que pudéssemos ver o cachorro e a pessoa que estava na rua ao mesmo tempo. E se eles escolhessem as horas de sua vinda para casa de maneira aleatória, que nem ela mesma soubesse previamente, que ninguém soubesse previamente; o operador filmando o cachorro, e nem ela nem seus pais sabiam previamente quando ela viria para casa, e ela viria para casa de táxi para eliminar a possibilidade de sons de carros familiares. Esse, portanto, é um experimento que foi realizado dentro dessas condições. Na vida real, Pam não vem para casa em horas escolhidas aleatoriamente, e que ela própria desconheça previamente.

Quando está no trabalho, ou quando sai para fazer compras ou visitar amigos, ela vem para casa em vários momentos diferentes, e nós monitoramos regularmente as horas em que ela volta, mais de 200 experimentos foram monitorados, temos dezenas deles em vídeo.

O cachorro nem sempre reage, cerca de 85% das vezes JT realmente espera por ela quando ela está vindo para casa, cerca de 15% ele não o faz. Analisamos as ocasiões em que ele não faz, a maioria das vezes ocorreu quando a cadela do apartamento vizinho estava no cio. Isso mostra que JT pode se distrair. Isso também ocorreu algumas vezes quando havia visitas na casa ou outro cachorro, e algumas vezes sem nenhum motivo. De qualquer forma, JT normalmente reage quando Pam decide que vai para casa. Naquele filme vocês viram que ele não começa a reagir quando ela entra no táxi, e sim quando ela estava pronta para ir para casa. Na vida real ele não reage quando ela entra no carro para ir para casa, e sim quando ela começa a se despedir dos amigos e pensando "bem, vou-me embora". Ele parece captar essa intenção dela. E este é o número de segundos no período de dez minutos em que JT está esperando perto da janela.

É bem verdade que ele vai até a janela ocasionalmente quando Pam não está a caminho de casa, normalmente porque vai latir para um gato que passa na rua ou está olhando alguma coisa que está acontecendo do lado de fora. Nesses gráficos incluímos todos esses casos, embora fique claro no vídeo que ele não está esperando, mas como os céticos dizem que se você usar evidência seletiva isso demonstra que você inventou a coisa toda, não fizemos nenhuma seleção aqui. Às vezes há uns trechos barulhentos, quando ele vai até a janela de qualquer maneira, mas podemos ver que isso é a média de 12 ocasiões diferentes quando ela estava fora por mais de 3 horas.

O tempo que ele está esperando na janela é maior aqui e aqui, quando ela está no caminho de casa do que quando ela não está. Vemos um pequeno aumento antes de ela ir para casa, que, a meu ver, tem que ver com esse efeito antecipatório. O tempo em que ela está voltando é o tempo em que ela já está no carro, portanto, ela está se preparando para vir no momento imediatamente anterior a esse. Essas são ausências de tempo médio, seis ausências de tempo médio e uma vez mais aqui vemos essa antecipação nos dez minutos antes de ela sair. É bastante claro, mas JT está obviamente esperando por ela principalmente quando ela está no caminho de casa. Essas aqui são ausências curtas, essas são alguns experimentos mais barulhentos, mas eles mostram o mesmo resultado.

O que é claro nesses gráficos é que JT não vai para a janela com mais freqüência quanto mais tempo ela estiver fora. Ele obviamente está muito mais na janela aqui, quando ela está no caminho de volta, do que nos períodos correspondentes aqui. Esses efeitos têm uma enorme significância estatística. Vários tipos de análise mostram significâncias que vão mais além da escala de meu computador. Esses efeitos são do tipo p é menor que .00001. Esses resultados foram amplamente publicados na Grã-Bretanha, nos jornais, e é claro foram criticados pêlos céticos, que estão sempre prontos para dizer que nada semelhante poderia ocorrer. Esses experimentos foram criticados por um dos céticos mais ativos na Grã-Bretanha, cujo nome é Richard Wiseman. Segundo ele, eu não tinha usado procedimentos adequados, não os tinha registrado de forma adequada, etc.

Eu fiz também muitos experimentos com horas de retorno aleatórias. Pam tem um pager em seu bolso que eu ativei por telefone de Londres e ela vem para casa em momentos verdadeiramente aleatórios, usando um desses pagers da telecom. De qualquer forma, ele criticou os detalhes, então eu disse: "Tudo bem, por que você mesmo não faz o experimento? Eu organizo tudo para que você possa fazê-lo com o mesmo cachorro. Emprestamos uma câmera de vídeo, Pam irá onde você quiser, o seu ajudante ficará observando-a". Na verdade, então, o próprio Wiseman filmou o cachorro e ficou no apartamento dos pais da Pam, enquanto seu ajudante ia com a Pam para pubs, ou outros lugares, até que em um momento determinado aleatoriamente fosse decidido que eles voltariam para casa. Eles checavam o tempo todo para garantir que não haveria chamadas telefônicas secretas, nenhum meio de comunicação invisível, nenhuma fraude ou trapaça. Wiseman é um mágico, e ele é um desses céticos que está sempre afirmando que tudo pode ser feito por trapaça ou ilusionismo. Bem, ele mesmo esteve lá, e eles estavam se protegendo de tudo, e ele realizou três experimentos com Pam na casa de seus pais, e esses foram os resultados dos três experimentos que ele fez, usando todos seus controles rigorosíssimos, seu próprio procedimento aleatório, e outras coisas mais (os resultados são exatamente iguais aos outros; o público ri). Portanto, esses resultados são sólidos, mesmo com um cético, que ao fazer o experimento na verdade não quer que ele dê certo. E agora estamos trabalhando com outros cachorros e gatos e encontramos resultados semelhantes, e se vocês estiverem procurando temas para projetos de pesquisas essa é uma área extremamente produtiva e interessante.

As pessoas leigas a acham fascinante, porque elas geralmente estão interessadas em animais domésticos e as implicações são enormes, mas também é simplesmente divertido e pode ser feito com um custo muito baixo, você precisa de uma câmera de vídeo pra esses experimentos, mas câmeras de vídeo são bastante baratas hoje em dia e muitas pessoas as têm. Atualmente realizo uma série de experimentos em Santa Cruz, Califórnia, com um tipo de periquito italiano que mostra o mesmo tipo de reação: eles guincham quando o dono está vindo para casa, e obtemos quase o mesmo tipo de gráficos, mostrando que os guinchos vão aumentando de intensidade quando o dono está a caminho de casa em horas aleatórias. Portanto, provavelmente aqui em Portugal, seria possível fazer esses experimentos com cães e gatos, na verdade acho que essa pesquisa pode ser feita em qualquer lugar. É uma pesquisa muito, muito interessante.

Como visto, demonstração pública de telepatia, transmitida pela televisão, replicável. Em vez de o cético dar o braço a torcer – afinal suas exigências foram plenamente atendidas – ele ainda tentou arranjar uma explicação normal para o fenômeno:

Quanto à "experiência" com o cão, só faltou [a]crescentarem o pequeno, quase imperceptível detalhe que a audição dos cães é tremendamente mais sensível que a dos humanos, tanto em potência (intensidade), aproximadamente 4 vezes, quanto ampla em espectro (de 60 a 60K Hz) quanto em resolução (poucos ouvidos humanos distinguem um motor de carro de mesmo modelo de outro, cães sim, só aí já tem muito deste tipo de fenômeno pueril que você apresenta).

O cético demonstrou que não leu direito o artigo, ou teria visto que a questão dos sons foi devidamente tratada por Sheldrake:

e ela viria para casa de táxi para eliminar a possibilidade de sons de carros familiares.

Após isso, o cético evitou tocar no assunto, mesmo após insistentes menções minhas ao desafio. Parece que sustentar a fé materialista é mais importante para este cético do que sua própria honestidade intelectual.

Nada de Super…

0 comentários

Uma resenha da reportagem de capa da revista Superinteressante, edição de julho de 2009

Ansioso, fui até a banca de revistas mais próxima adquirir um exemplar do mês de julho de 2009 da revista Superinteressante, cujo o tema era paranormalidade e pesquisa psi. Ao mesmo tempo não pude deixar de sentir um certo ar de desconfiança, uma vez que uma tema “não convencional” foi abordado por uma revista supostamente destinada a um público interessado em ciência. Sendo assim, a Parapsicologia, um tema sempre polêmico e controverso, correria risco de ser tratado com parcialidade e descrédito.

A reportagem começa com um breve relato do Projeto Stargate, iniciativa militar norte-americana de espionagem psíquica, apresentado os resultados positivos obtidos. Houve um relato de um episódio onde Joseph McMoneagle onde este identificou com exatidão que estava sendo construído um submarino em determinada instalação. Voltaremos a esse ponto mais tarde. São feitas também algumas menções a Noreen Renier, suposta detetive paranormal, e várias citações a psíquicos fraudulentos.

A reportagem seguiu com algumas pesquisas sobre o assunto e diversas faculdades psíquicas observadas, destacando os resultados dos experimentos Ganzfeld, os de precognição e os de psicocinésia. Houve menções aos experimentos de J. B. Rhine, de Daryl J. Bem e de Garret Moddel como exemplos de experimentos psi bem sucedidos. Neste ponto a reportagem concede certa credibilidade aos experimentos, mostrando que estes obtiveram sucesso estatísticos extraordinários. Algumas opiniões interessantes sobre pesquisas psi, realizadas por pesquisadores sérios como Ed Kelly e Dean Radin também foram expostas. Alguma discussão sobre supostos mecanismos responsáveis, modus operandii, foram também apresentadas. Até aí, as opiniões foram favoráveis. Veremos o que se seguirá.

Como sempre, e de forma correta, houve o contraponto cético às pesquisas e às conclusões do texto. No entanto, sempre sinto uma preocupação em como essas críticas são apresentadas, onde penso que elas têm um peso desproporcional, uma vez que não vá de encontro às opiniões e interesses dó público-alvo a que a revista se destina. Isso ficou bem destacado na resenha da Nature sobre o livro de Dean Radin, The Conscious Universe, onde uma série de equívocos direcionaram o texto. A primeira menção foi sobre a questão estatística. Os resultados das pesquisas costumam sempre ser significativos estatisticamente, embora os valores pareçam ser baixos. A crítica segue com a opinião de outros especialistas alegando que tais divergências podem se dar por desvios estatísticos ou falhas laboratoriais. No entanto, algo que é sempre muito ignorado, é que tais pesquisas, de um modo ou de outro, tiveram uma participação cética. Por exemplo, no debate entre Charles Honorton e Ray Hyman, um comunicado conjunto destacando os resultados positivos foi apresentado. Hyman, cético militante e membro do CSICOP, apontou que os resultados poderiam ser devido à falhas metodológicas e propôs alterações. Daí, surgiu o Auto-Ganzfeld, orientado por computador. Os resultados se mantiveram. Hyman, embora mantendo um posição cética, declarou-se intrigado com os resultados. Stanley Jeffers, outro notório cético, tentou replicar experimentos em psicocinésia e obteve resultados positivos.

Além do mais, nunca há, por parte dos céticos, a análise da qualidade dos acertos. Alguns são extremamente precisos, tal que como se visto diretamente pelo sujeito experimentado. As experiências citadas, em sua maioria, foram replicadas milhares de vezes e por dezenas de pesquisadores diferentes, o que dilui em muito a possibilidade de fraude e falha metodológica. Outras pesquisas muito interessantes e de impacto ainda maior não foram sequer mencionadas, como o fenômeno do entrelaçamento de mentes, observados por várias equipes de pesquisadores como as de Jiri Wackermann, Leanna Standish e Jacobo Gringberg Zylberbaun. As obras recomendadas para leitura, embora aprofundadas , não estão acessíveis ao grande público brasileiro, uma vez que não foram traduzidas para o nosso idioma. Uma obra de grande referência na área, o livro Mentes Interligadas, de Dean Radin, publicado no Brasil pela Editora Aleph, foi ligeiramente citada no texto, mas não ficou entre as três obras do quadro “Para Saber Mais:”. Aliás, o nome do livro foi até escrito incorretamente: Mentes Conectadas. Também, estudos de impacto, como os de cura por intenção e consciência coletiva foram completamente omitidos. A meu ver, um aprofundamento excessivo da crítica e uma pequena relevância na evidência por parte do autor.

Como não poderia ser diferente, o desafio de James Randi foi citado. Por razões de espaço não discutirei aqui as falhas desse desafio, mas enquanto contra-argumento da pesquisa psi, mesmo céticos de nível acadêmico procuram não se valer de tal argumento, uma vez que o teste é realizado em seu próprio instituto, o que gera dúvidas sobre sua confiabilidade. Além disso, George Hansen, mágico membro da Fraternidade dos Mágicos, fez uma pesquisa entre seus pares e descobriu que a maioria, algo em torno de 80%, acredita na veracidade do fenômenos. Achei bastante negativa também a excessiva referência às fraudes, uma vez que se o assunto é delicado e controverso, deveria haver maior destilação do tema com base em suas evidências empíricas e sujeitos bem sucedidos e não destacando os embustes por parte de vigaristas, apresentados em maior número na reportagem.

No fim, o autor cita novos avanços neurocientíficos que prometem simular efeitos psi. A tônica foi de que tais efeitos podem ser reproduzidos integralmente por meios tecnológicos. Isso denota completo desconhecimento do tema, pois em vários experimentos observou-se que a psi não obedece o que consideramos as leis físicas clássicas, sendo que seus efeitos independem da distância, do tempo e do tipo de isolamento proposto ao indivíduo. Assim, temos experimentos bem sucedidos com sujeitos em gaiolas de Faraday e a distâncias bastante longas. Simular não indica explicar. As faculdades psíquicas ainda não contam com uma explicação adequada sobre seus funcionamentos, o que é respaldado tanto pelos cientistas como pela reportagem em si. O texto encerra com uma citação de Arthur C. Clarke, famoso autor de ficção científica, que faz uma analogia entre a tecnologia e a mágica, onde a primeira cada vez mais se aproxima da segunda. Lamentavelmente, a “mágica” dos fenômenos psíquicos, para desconhecimento do autor, é descrita desde os primórdios da humanidade e nada tem a ver com avanços científicos. Ao contrário, parece ser algo tão natural quanto o ato de pensar e refletir, comum a nós todos.

A reportagem da revista Superinteressante importou pelo pioneirismo ao abordar um tema controverso e desconhecido pela grande maioria do público, mas careceu de uma pesquisa mais aprofundada sobre o assunto e a exposição da evidência pareceu-me um tanto desacreditada como se fosse algo não tão difícil de refutar. Anseio ainda por ver uma reportagem mais abrangente e séria, sem tanto crédito às “crenças” céticas e opinião mainstream. Quem sabe numa edição especial?

A Guerra fria e a psi: militarizando a percepção extra-sensorial

0 comentários

Na década de 60, quando o serviço de inteligência americano descobriu que os soviéticos estavam gastando milhões de dólares em pesquisa, instalou-se enorme preocupação, pois era de conhecimento que eles não despendiam dinheiro em programas não produtivos.

Ao verificar que a URSS investia em alguma forma de influência a distância (posteriormente chamada de visão remota – termo cunhando por Harold E. Puthoff e Russell Targ), a inteligência dos EUA percebeu que a segurança nacional estava potencialmente em risco, já que não existia nenhum programa de pesquisa correspondente efetuado pelo governo americano, principalmente ao constatar-se que a “Ameaça Vermelha” deixou tal pesquisa a cargo do serviço de segurança. Como resultado disso, a despeito de toda rejeição da comunidade científica americana para assuntos dessa natureza, os EUA, inicialmente através da CIA, começaram a financiar e acelerar a busca por resultados militares para o uso de psi. Os investimentos iniciais foram direcionados ao Stanford Research Institute – SRI – (Menlo Park, California), que já desenvolvia anualmente pesquisas financiadas pelo governo. Os agentes da CIA então se aproximaram de Puthoff, físico e ex-oficial da inteligência naval, que já havia trabalhado para a Agência Nacional de Segurança (NSA). O interesse por Puthoff decorreu de algo que ele publicara sobre o psíquico Ingo Swann.

Em 2001, Rick Bremseth, comandante da armada estadunidense por quase 30 anos, publicou um trabalho como parte dos requisitos para a Marine Corps War College, Marine Corps University e Marine Corps Combat Development, que minuciosamente abordou diversos materiais classificados pelo governo americano como sigilosos, além de entrevistar alguns dos sujeitos diretamente envolvidos. Em tal monografia, observa-se que o governo dos EUA não só replicou a evidência de fenômenos psíquicos anômalos, mas também executou com êxito incursões militares com o apoio de psíquicos.

O teste inicial

Utilizando-se da visão remota (clarividência) dos psíquicos Ingo Swann e Pat Price, a CIA desenvolveu um método, denominado Scanate, baseado nas coordenadas geográficas, que serviriam como alvo para os agentes psi. Foi assim que, dadas as coordenadas para uma casa de montanha, localizada em West Virginia, de propriedade de um funcionário dessa agência, os psíquicos descreveram uma Instalação da National Security Agency NSA, próxima dali (segundo eles era bem mais interessante). Swann e Price não só deram detalhes bem convincentes sobre como era essa Instalação, mas também explicitaram os propósitos dela, e “penetraram” num aposento protegido, obtendo o nome código da Instalação e de vários outros programas, que eram extremamente delicados.

O alvo soviético

Em 1974, a CIA forneceu as coordenadas de uma Instalação de pesquisa não-identificada, localizada em Semipalatinsk, URSS. O lugar era destinado a equipamentos nucleares. Price acuradamente descreveu a Instalação e o trabalho que lá estava em execução. Ele rascunhou uma grande estrutura, como um guindaste, que literalmente girava os topos das construções em volta delas. Price ainda detalhou um trabalho que estava sendo realizado dentro de um dos prédios, uma experiência em soldar pesado metal para a construção de uma esfera de 60 pés. De acordo com o físico Russell Targ, que se somando a Puthoff desenvolvia as pesquisas em psi no Stanford Research Institute - SRI, somente após três anos que se constatou a precisão dos esboços de Price, quando esta atividade de construir a esfera foi descrita na Aviation Week megazine, em 2 de maio de 1977. Targ ainda observou que, durante os experimentos, Price foi colocado numa sala eletronicamente protegida, dentro de um prédio de Radio Física no SRI, situado a dez mil milhas de Semipalatinsk .

Sai a CIA entram a força aérea e a DIA…

Após os resultados em West Virginia e Semipalatinsk, um físico e contract monitor da CIA para as pesquisas no SRI, A. Kress, escreveu uma sinopse nomeada Parapsychology in Intelligence: a Personal Review & Conclusions, cuja classificação atribuída foi nada menos que sigilosa. Nesse artigo, o autor concluiu que as pesquisas e experimentos demonstraram habilidades paranormais, mas que os pesquisadores não conseguiram explicar, de modo suficiente, ou alcançar a reprodutibilidade (aqui considerada para resultados imediatos, não preocupados com a ciência básica e os processos envolvidos).

Em 1975, temendo escândalos, principalmente após as críticas do senador Proxmire, que duramente atacava os gastos com o dinheiro público em programas que ele achava sem sentido, no que incluiu a pesquisa psíquica, a CIA deixou de investir na visão remota. Todavia, longe de o interesse governamental cessar, a força aérea dos Estados Unidos, junto com a Defense Intelligence Agency (DIA), tomaram as rédeas, sendo instituído, dentro do U.S. Army Intelligence Support Command (INSCOM), um programa (denominado Gondola Wish) cuja meta era determinar a vulnerabilidade militar dos EUA à visão remota. A fase inicial (de treinamento) foi logo interrompida em razão de uma crise no Irã, quando dezenas de americanos foram tomados como reféns em 1978/79. Alterado o nome código do programa para Grill Flame, o grupo de observadores remotos teve a missão de tentar localizar os aprisionados no Irã, num universo de quatrocentos americanos que se encontravam naquele país. Segundo um dos oficiais recrutados para o super secreto programa conhecido como Stargate Project, Joseph McMoneagle, o Grill Flame não apenas identificou onde estavam sessenta e quatro americanos presos no Irã, mas ainda outros três, que por suas missões de natureza delicada, encontravam-se isolados do corpo principal de reféns. McMoneagle conclui ainda que não fosse a intervenção do Grill Flame, o governo dos EUA acabaria por ser forçado a negociar com os iranianos, o que resultaria na tortura e morte dos aprisionados.

O resgate

McMoneagle informa que, durante todo o conflito no Irã, o Grill Flame executou cerca de seiscentas tarefas determinadas pelo Conselho de Segurança Nacional - NSC. Os membros do Grill Flame recebiam, semanalmente, tarefas de visão remota da NSA, CIA, DIA, Serviço Secreto, FBI e de outras agências e organizações federais. Finalmente, os observadores remotos identificaram uma rota de resgate subterrânea, identificável apenas por velhos mapas Persas ou Romanos da rede de esgoto de Tehran.

O esboço consistia num objeto em forma de grade em diagonal, com quadrados azul e laranja, também diagonais, cobertos por um objeto de forma oval. O que, a princípio, não fazia sentido, felizmente - disse McMoneagle - foi seguido por alguém. Assim, cerca de meia milha da Embaixada americana em Tehran, havia uma área mercantil coberta por uma proteção com quadrados oblíquos azul e laranja, mascarando um objeto em forma de paralelogramo que provou ser um buraco tampado. Pois bem, esse buraco conduzia-se a linhas telefônicas subterrâneas que, desapontadamente, permaneciam em perpendicular à Embaixada. Porém, mapas arquivados do local revelaram que ali se encontrava um antigo sistema de esgotos de período pré-persa ou pré-romano, desconhecido até mesmo dos Iranianos, que se estendia abaixo do sistema de linhas telefônicas. O sistema de esgotos percorria sob a Embaixada dos EUA, com saída para uma de suas garagens, o que proveu uma real tentativa de resgate.

Os erros dos observadores remotos

Desafortunadamente, a psi é um tanto esquiva, de maneira que não se pode esperar resultados completamente precisos, embora possam ser, com justiça, suficientes para se afirmar que o fenômeno vai muito além de uma mera adivinhação ou palpite sortudo. Desse modo, é de se esperar erros. Contudo, alguns resultados considerados equivocados poderiam ser falsos-erros, pelos seguintes motivos:

1º- existe a possibilidade de um fato observado remotamente não ser contemporâneo ao relato (uma espécie de clarividência retro ou precognitiva). Pat Price, abastecido apenas com algumas coordenadas, descreveu acuradamente a área de San Francisco Bay, embora “visse” dois tanques d’água que ali não estavam, detalhe considerado impreciso. Anos depois, uma velha fotografia demonstrou que no mesmo local havia dois tanques d’água, exatamente onde Price os indicou;

2º- alguns resultados podem ser considerados falhos, porque não foram razoavelmente investigados. No caso da crise no Irã, não fosse a tentativa de alguém meramente testar a informação descrita pelos observadores remotos, o esboço desenhado por um deles seria computado como insucesso.

Conclusão

Graças ao Freedom of Information Act, muitos programas dessa natureza, então sigilosos, foram desclassificados, passando a cair em domínio público. Todavia, é claro que uma grande quantidade de escritos permanece em segredo, a final, foram vinte e três anos (1972-1995) de investimentos do governo dos Estados Unidos em psi (!) Seria ingênuo supor que os poucos casos divulgados responderiam por mais de duas décadas de pesquisa. Targ (em Do You See what I See? Memoirs of a Blind Biker, 2008) observa que Robert Gates, secretário de defesa, e diretor da CIA à época, disse no programa de TV Nightline que a CIA, embora financiasse o Stanford Research Institute, nada de útil emergiu disso. Targ, então surpreso, retoricamente, indagou por que o entrevistador (Ted Koppel) não perguntou a Gates a razão dele apoiar um programa por vinte e três anos se, na verdade, nada de útil poderia vir dali (?!).

---------------------------------------

Bremseth, L. R. (comandante da armada dos Estados Unidos). Unconventional Human Intelligence Support: Transcendent and Asymmetric Warfare Implications of Remote Viewing, 2001.

O Valor Evidencial das Experiências de Quase-Morte para a Crença em Vida Após a Morte

0 comentários
Michael Potts, Ph.D.[1]
Methodist College, Fayetteville, NC

Traduzido por Francisco Mozart Rolim e Vitor Moura Visoni

RESUMO: Neste artigo, eu exploro a questão de qual valor evidencial as experiências de quase-morte (NDEs) oferecem para a crença em vida após a morte. Pesquiso as posições principais sobre esta questão, variando desde escritores que acreditam que as NDEs já oferecem evidência convincente para a vida após a morte, a fisicalistas que acreditam que elas oferecem, no máximo, um caso muito fraco. Eu argumento que a evidência presente da NDE de fato sugere a possibilidade de vida após a morte; entretanto, tal evidência não é poderosa e nem convincente. Entretanto, eu sigo adiante argumentando que as NDEs de fato oferecem persuasiva evidência para vida após a morte para o indivíduo que passa pela experiência. Eu termino sugerindo que mais pesquisa deve ser feita sobre o mais importante tipo de evidência de vida após a morte oferecida pela NDE, percepções verídicas durante uma NDE.

PALAVRAS-CHAVE: experiência de quase-morte; experiência fora-do-corpo; evidência para sobrevivência.

Desde a publicação de Life After Life (1975) de Raymond, houve uma abundância de literatura sobre as assim chamadas “experiências de quase-morte” (NDEs). Em tais experiências, alguns indivíduos que foram ressuscitados de uma parada cardíaca relatam um sentido de separação do corpo e experiências que ocorrem durante esse período de separação. Os fenômenos relatados incluem a visão do próprio corpo, sua ressuscitação, mover-se em um túnel em direção à luz, visões de parentes mortos, mover-se em um túnel em direção à luz, visões de mortos relativos, e visões de figuras religiosas tal qual Jesus Cristo. Em ordem para classificar os diferentes tipos de experiências associados com este fenômeno, Michael Sabom (1982) propôs uma distinção útil entre NDEs “autoscópicas” e “transcendentais”. A NDE autoscópica envolve um sentido de separação do corpo e pode incluir ver o próprio corpo físico, bem como ver e ouvir sua ressuscitação. A NDE transcendental envolve visões de “outra esfera”, incluindo experiências de figuras religiosas, tais como anjos ou Deus.

Entre as questões religiosas levantadas pelas NDEs está qual valor evidencial, se algum, elas oferecem para a crença em Deus, seres divinos, vida após a morte, ou simplesmente alguma forma de sobrevivência após a morte. Indivíduos que passam por uma NDE quase invariavelmente estão convencidos que suas experiências foram de uma realidade objetiva; NDEs têm, tanto quanto as experiências místicas, o que William James (1902/1958) chamou de “qualidade noética”. Poderiam as NDEs serem úteis para fazer um caso convincente para a existência de Deus ou anjos ou vida após a morte?

Bem estranhamente, como Emily Cook, Bruce Greyson e Ian Stevenson (1998) notaram, aqueles que investigaram NDEs “têm com raras exceções completamente ignorado a questão da sobrevivência da consciência após a morte do corpo” (p. 378), enquanto aqueles que investigam se o self sobrevive após a morte têm se afastado das NDEs, acreditando que elas oferecem pouca promessa de fornecer dados convincentes apoiando a questão da sobrevivência” (p. 378), porque NDEs são experiências subjetivas, e as percepções que ocorrem durante a NDE são difíceis de verificar. Embora a questão da evidência oferecida pela NDE para a vida após a morte tenha sido discutida em anos mais recentes, pesquisa adicional resta a ser feita.

Este artigo foca na questão de qual valor evidencial, se algum, NDEs oferecem para a crença de vida após a morte. Por “vida após a morte”, eu me refiro a alguma experiência consciente e percepção após a morte; isto não quer dizer necessariamente uma vida após a morte sem fim. Eu abordarei as posições principais sobre essa questão, variando desde escritos que sustentam que NDEs já oferecem forte evidência para vida após a morte até aqueles escritores que acreditam que elas oferecem um caso muito fraco para sobrevivência. Primeiro, eu examino a posição de Gary Habermas e J. P. Moreland (1992), que acreditam que NDEs oferecem forte evidência para uma vida após a morte mínima que inclui a sobrevivência de uma personalidade, uma alma não física. A posição deles representa um extremo sobre esta questão e assim é um ponto de partida útil para mais discussão. Eu irei argumentar que a posição deles está além da evidência disponível. Prosseguirei discutindo posições que, embora neguem a posição de Habermas e Moreland que NDEs oferecem convincente evidência para vida após a morte, sustentam que NDEs são indicadores sugerindo a possibilidade de alguma sobrevivência pós-morte.

Na seção seguinte, discutirei a posição fisicalista sobre as NDEs, que sustentam que elas podem ser exaustivamente explicadas em termos de processos fisiológicos de um corpo moribundo, e oferecem, no máximo, uma evidência muito fraca de um pós-vida. Discutirei algumas interpretações fisicalistas características de NDEs, tal qual a visão que NDEs ocorrem devido a processos fisiológicos similares a experiências induzidas por drogas. Muito da discussão se centrará no trabalho de Susan Blackmore (1993), que sustenta que NDEs podem ser explicadas totalmente em termos de processos fisiológicos internos ao corpo e no momento da morte. De acordo com Blackmore, NDEs podem ter valor psicológico para o indivíduo; entretanto, elas não oferecem forte evidência para vida após a morte já que elas podem ser exaustivamente explicadas neurofisiologicamente. Embora reconhecendo a força do caso desenvolvido por Blackmore e outro fisicalistas, eu argumento que eles desnecessariamente descartam explicações não fisicalistas, e que é possível que evidência futura vinda de NDEs possa fornecer um caso mais forte para a vida após a morte.

Na seção final, eu ofereço uma alternativa a ambas as posições. Concordando com a posição mais moderada e cuidadosa de escritores tais como David Lorimer (1984), Paul e Linda Badham (1982), e Carl Becker (1993, 1995), argumentarei que, dada a evidência presente, NDEs oferecem alguma evidência pública para a vida após a morte, mas mais ao longo de linhas de sugestões ou indicações para mais pesquisa. Dada mais pesquisa, estas indicações têm o potencial de produzir um caso forte para a vida após a morte baseada na evidência oriunda da NDE. No entanto, eu ainda argumento que uma NDE pode oferecer razoável, e mesmo forte, evidência para a vida após a morte para o indivíduo que tem a NDE. Como exemplo, eu discuto o caso de Pam Reynolds (Sabom, 1998), que teve percepções, durante um período de nenhuma função cardiopulmonar nem cerebral, que são difíceis de explicar à parte da noção que ela teve alguma percepção separada do seu corpo. Essas percepções, combinadas com suas percepções de parentes mortos, de fato, em meu julgamento, fazem razoável para Reynolds acreditar que ela teve uma experiência de uma vida “mínima” após a morte. Mas nesta fase do jogo, sem mais estudo, tais percepções ainda não oferecem evidência convincente para vida após a morte para aqueles que não tiveram NDEs. Finalmente, discutirei um estudo recente por Sam Parnia, D. G. Waller, R. Yeates, e Peter Fenwick (2001), que representa uma direção promissora para mais estudo sobre a potencial evidência da NDE para a sobrevivência à morte.

O Caso Em Que NDEs Fornecem Forte Evidência de Sobrevivência

Habermas e Moreland argumentam pela posição que NDEs são “forte evidência para ao menos uma visão minimalística de vida após a morte”, que eles definem como “vida nos momentos iniciais após a morte, não uma visão detalhada de vida celestial nem mesmo necessariamente vida eterna” (1992, p. 74). Eles diferenciam “entre morte clínica (ou reversível) e morte biológica (ou irreversível)” (p. 73). Morte clínica ocorre quando há perda dos sinais vitais como “consciência, pulso e respiração” e é potencialmente reversível; se não é revertida, leva à morte biológica, que é “clinicamente irreversível”. Os autores, seguindo Moody, adicionam uma terceira categoria, “entre essas duas”, um paciente com eletroencefalograma (EEG) plano, isso é, sem ondas elétricas cerebrais.

Habermas e Moreland argumentam que 4 tipos de evidências convergem para fazer um caso forte em que NDEs deveriam ser interpretadas como experiências após a morte. Primeiro, eles se referem a casos em que pessoas próximas da morte, incluindo algumas clinicamente mortas, descrevem seus arredores em acurado detalhe. Eles citam alguns casos, incluindo um extraído de um livro de Melvin Morse sobre as NDEs de crianças (Morse e Perry, 1990), o de uma menininha que quase se afogou numa piscina. Posteriormente, ela foi capaz de descrever as características físicas dos médicos envolvidos em sua ressuscitação, detalhes nas salas do hospital em que ela foi levada, e detalhes específicos concernentes aos procedimentos médicos usados durante sua ressuscitação. Habermas e Moreland também se referem a casos de pessoas cegas (não pessoas congenitalmente cegas, mas pessoas que se tornaram cegas durante a vida) que relataram detalhes visuais das pessoas ao seu redor no estado de quase-morte. Tais detalhes específicos da ressuscitação dos pacientes sugerem alguma forma de separação da “alma” do corpo, o que por sua vez sugere sobrevivência do self em alguma forma após a morte clínica.

A “segunda linha” de evidência de Habermas e Moreland provavelmente não deveria ser listada como uma categoria separada. É simplesmente o fato que muitas pessoas que forneceram detalhes acurados concernentes a sua ressuscitação estavam experimentando uma parada cardíaca no momento; Habermas e Moreland se referem ao estudo de Sabom (1982) que analisou as respostas a um questionário concernente ao procedimento de ressuscitação após uma parada cardíaca. O questionário foi dado a vítimas de parada cardíaca que experimentaram NDEs e também a 25 pacientes cardíacos que não passaram por tal experiência. É importante notar que embora todos os indivíduos de Sabom usados para comparação fossem pacientes cardíacos crônicos, apenas quatro sofreram parada cardíaca sem NDE. A resposta daqueles que tiveram NDEs foram muito mais precisas e detalhadas concernente ao procedimento da ressuscitação do que aqueles que não tiveram.

A terceira linha de evidência é de pacientes que tiveram leituras de EEG planas. Alguns destes pacientes relataram experiências que aparentemente ocorreram durante este período de atividade isoelétrica do EEG. Habermas e Moreland alegaram que “atualmente a ausência de qualquer função de onda cerebral do EEG é a melhor e mais vastamente aceita indicação que o cérebro não está funcionando” (p. 77). Como notado abaixo, essa alegação é inexata. Eles apresentam um caso anedótico (extraído de Kübler-Ross, 1976) de uma mulher que foi declarada morta sem qualquer sinal vital e um EEG plano que registrou consciência cerca de três horas e meia depois de ela ter sido declarada morta. Ela ressuscitou enquanto era levada para o necrotério e acuradamente relatou sua ressuscitação.

A quarta linha de evidência que Habermas e Moreland apresentaram consiste de casos nos quais os NDErs tiveram visões dos entes queridos que morreram, mas a quem o NDEr não sabia que tinha morrido. Isso fornece evidência para a visão que a consciência continua mesmo após a morte biológica, no caso do ente querido falecido que é visto durante a NDE. Destas linhas de evidência Habermas e Moreland concluíram que NDEs fornecem forte evidência para a consciência persistir quando o cérebro não está funcionando, e que isto por sua vez fornece forte evidência “de uma vida minimalística que existe naquele momento após a morte. (p. 84, itálicos no original).

Embora o caso apresentado por Habermas e Moreland tenha alguma força, não prossegue, ao menos por enquanto, em apresentar um forte argumento para uma “vida minimalista após a morte”. Primeiro, embora eles se refiram à pesquisa estatística de Sabom sobre as NDEs, eles também extraíram de várias fontes, como os escritos de Maurice Rawlings (1980) e Elisabeth Kübler-Ross (1976), que se referiam a casos anedóticos. Em tais fontes faltam a pesquisa detalhada e o acúmulo de dados encontrados no estudo de Sabom. Habermas e Moreland responderam que não há nada errado em realizar entrevistas para obter informações; afinal de contas, historiadores fazem o mesmo. Isto é bastante justo, mas tais entrevistas deveriam ser bem feitas, sob condições de controle tanto quanto possível. Muitos relatos anedóticos de NDEs permanecem exatamente isso – anedóticos – porque falta a eles qualquer evidência de uma tentativa cuidadosa em entrevistar todas as partes envolvidas na ressuscitação do paciente para conferir a acurácia do relato do NDEr.

Ainda existem mais sérias dificuldades com o caso de Habermas e Moreland. A alegação de que um EEG plano é suficiente para diagnosticar falta de atividade cerebral é simplesmente falsa, porque o EEG somente registra atividade na superfície do córtex cerebral. É possível que exista atividade em outras partes do cérebro (McCullagh, 1993). Também existem, como Habermas e Moreland reconhecem, explicações alternativas para o fenômeno da NDE, incluindo drogas e anoxia, ou falta de oxigênio no cérebro. Embora uma explicação naturalística possa não explicar adequadamente uma NDE em particular, é possível que uma combinação de explicações naturalísticas possa ser capaz de explica toda NDE. Mais, explicações fisicalistas, que não se referem a uma alma desencarnada, são mais parcimoniosas que explicações não fisicalistas.

Evidências que apóiam uma explicação fisicalista para as NDEs incluem experiências semelhantes à NDE mas que ocorreram quando a pessoa não estava próxima à morte. Algumas experiências induzidas por drogas como a quetamina (Jansen, 1997) e experiências de “medo da morte” (Owens, Cook e Stevenson, 1990) que ocorrem quando a pessoa está em sério perigo, mas não perto da morte, imitando uma NDE (Noyes, 1972; Noyes e Kletti, 1976; Blackmore, 1993). Algumas pessoas que não têm problemas de saúde e não estão em perigo imediato relataram experiências fora-do-corpo (OBEs) pela meditação; algumas vezes elas ocorrem espontaneamente. Como os próprios Habermas e Moreland observam, Wilder Penfield reproduziu experiências semelhantes a uma NDE estimulando o lobo temporal do cérebro (Penfield e Rasmussen, 1950), o que sugere que experiências semelhantes à NDE são correlatas com mudanças na fisiologia cerebral; e é uma posição razoável sustentar que tais experiências são causadas por mudanças fisiológicas.

Tão impressiva quanto a evidência do estudo de Sabom é, não é suficiente para apoiar a forte conclusão evidencialista de Habermas e Moreland. Como já observado, seu grupo de comparação não consistia primariamente de pacientes que passaram pela parada cardíaca e ressuscitação; como Blackmore apontou, não foi um bom grupo controle. (Eu irei discutir o caso dela contra Sabom mais abaixo). Mais pesquisas são necessárias para corroborar os estudos de Sabom. Mesmo que NDErs apresentem evidências que tiveram experiências sensoriais de sua ressuscitação, isto não necessariamente implica uma explicação não fisiológica. Outras explicações são possíveis, incluindo a formação de falsas memórias por ouvir coisas durante a ressuscitação, ou por ouvir depois sobre a ressuscitação dos profissionais de saúde ou dos membros familiares.

V. Krishnan (1985) ofereceu uma crítica adicional ao estudo de Sabom. Krishan reconheceu a alegação de Sabom que alguns NDErs experimentam “clara e acurada percepção visual” (p. 23). Ainda que Krishnan não concorde com a interpretação de Sabom, particularmente por causa da posição que os NDErs alegam observar ser “quase sempre acima do nível do corpo quando a experiência ocorre espontaneamente e pela primeira vez” (p. 23). Isto tem sempre sido verdadeiro em experiências de “medo da morte”, que podem ocorrer, por exemplo, em uma pessoa caindo de uma grande altura. Krishnan escreveu sobre este ponto:

Se o mediador de uma experiência fora-do-corpo é um elemento que funciona independente do corpo, eu não vejo motivo porque deveria se posicionar apenas acima do corpo; parece razoável esperar momentos de observação de si próprio em outras posições fosse igualmente freqüente. Por exemplo, no caso de uma pessoa passando por uma OBE quando sentada ou de pé ou caindo de um lugar alto, a auto-observação é possível pela frente ao nível do olho ou abaixo dele. (1985, p. 23).

Naturalmente não existe uma razão a priori de porque NDErs não deveriam ver seus corpos da mesma posição. Além disso, algumas vezes NDErs têm a experiência de se afastarem de seus corpos e adentrarem em outros quartos ou mesmo sair do prédio. Discutirei o caso cético de Krishnan contra a interpretação sobrevivencialista de NDEs mais abaixo. Estes criticismos são insuficientes para mostrar que pesquisas tais como a de Sabom não oferece evidência genuína para vida após a morte. A evidência de Sabom deveria ser levada muito seriamente, especialmente com relação a percepções verídicas em NDEs, mas não é ainda forte o suficiente, sem estudos adicionais em larga escala, para apoiar a alegação que NDEs oferecem “forte evidência” ou mesmo uma visão “minimalista” de vida após a morte.

O Caso Em Que NDEs Fornecem Fraca Evidência de Sobrevivência

Outros escritores consideraram seriamente a evidência positiva que NDEs apóiam a sobrevivência após a morte, mas têm sido mais moderados e cuidadosos em sua avaliação da evidência do que Habermas e Moreland. Entre estes está Lorimer (1984) que analisou a evidência para a vida após a morte de uma vasta variedade de , não limitados a experiências de quase-morte, mas também incluindo experiências fora-do-corpo (OBE), relatos de indivíduos que alegaram se lembrar de sua morte na vida passada, e aparições. Lorimer concluiu:

os dados pesquisados não são em si mesmos prova coerciva ou conclusiva de que a própria consciência sobrevive à morte do corpo; eles são, entretanto, indicadores concretos que demandam uma explicação coerente e compreensiva. Se relatos de aparições, OBEs, NDEs, e experiências de morte foram aceitos como evidência válida, então as teorias materialistas da mente possuem somente aplicação limitada – a processos normais na ordem explicada das aparências... [No fenômeno da morte] a experiência ciente pode bem continuar em um estado realçado, liberta das restrições impostas pelo espaço-tempo, do corpo físico, e talvez mesmo do ego separado (1984, p. 304).

Fenômenos tais como as experiências no leito-de-morte são relevantes para a questão de vida após a morte, e OBEs são relevantes para a questão de se o self pode ter experiências independente do corpo. Há espaço para pesquisadores tais como Lorimer fazer uso de uma vasta variedade de fenômenos para formar um caso convergente para a sobrevivência após a morte. Um exame detalhado de tais fenômenos está fora do escopo deste artigo, que foca primariamente na evidência relevante para a vida após a morte das NDEs, embora outros fenômenos devessem ser considerados numa ampla pesquisa embasada da evidência para a vida após a morte.

Badham e Badham (1982) consideraram, junto com a evidência da NDE, a pesquisa de OBE e as visões do leito-de-morte de pacientes. Apesar de reconhecer rivais potenciais às interpretações transcendentais de NDE, tais como alucinações ou fatores fisiológicos, eles permaneceram impressionados pela evidência de Sabom de percepções verídicas durante as NDEs coletadas. Entretanto, eles reconheceram que mesmo estas podem ser explicadas em termos de conhecimento anterior de hospitais e unidades de ressuscitação, combinados com estímulos auditivos logo antes da perda de consciência.

Aproveitando idéias de uma pesquisa recente de OBE, eles sugeriram que um estudo fosse feito em que figuras reconhecíveis fossem pintadas sobre as instalações de luz em unidades de tratamento intensivo, de modo que os pacientes que tivessem NDEs teriam que vê-las de cima e identificá-las corretamente. Se isso ocorresse, constituiria forte evidência que alguma parte da pessoa humana pode existir separada do corpo e ter percepções verídicas. Tais percepções têm ligação com a questão de se há vida depois da morte:

Experiências de quase-morte são portanto da mais alta importância para a pesquisa sobre a vida após a morte, pelas características evidenciais nos relatos feitos pelas pessoas ressuscitadas sobre suas supostas observações fornecem algumas das bases mais fortes para supor que a separação do self do corpo é possível. (Badham e Badham, 1982, p. 78).

Badham e Badham então examinaram a evidência trazida pela NDE em mais detalhe e escreveram que a forte convicção dos NDErs que eles experimentaram a vida após a morte possui ao menos alguma força evidencial. Eles não ficaram impressionados com as alegações de visões de parentes mortos, pois existem explicações mais plausíveis que uma visão real dos parentes, ou como o caso de uma criança que alegou ter visto um parente morto em sua visão quando mostrada uma fotografia da pessoa, eles “retinham a credibilidade”. Por que deveria a criança ter visto seu parente com a mesma idade e aparência que a pessoa da foto? Casos em que um NDEr vê, com surpresa, parentes em que ele ou ela não sabia que estavam mortos possuem maior força evidencial. Badham e Badham também ficaram impressionados pela quantidade de acordo entre as culturas nos relatos de NDE. Há, então, ao menos, um “caso prima facie... para tratar experiências de quase-morte como evidência para a possibilidade da sobrevivência à morte corporal” (p. 81), embora esta evidência seja moderada pela possibilidade de explicações médicas alternativas, tais como anoxia cerebral ou os efeitos de drogas. No final, apesar da inquietação quanto à confiabilidade de algumas pesquisas de NDE, Paul Badham (sua esposa, linda, era mais cética sobre vida após a morte em geral) concluiu que, uma vez que explicações alternativas estão descartadas, a evidência fornecida pela NDE nos dá base para acreditar que elas são

relatos do que de fato acontece no momento da morte. E o que parece acontecer é que a alma deixa o corpo e começa a se dirigir para outro modo de existência...
Há, portanto, ao menos alguma evidência para apoiar a crença na imortalidade da alma após a morte do corpo. (Badham e Badham, 1982, p. 89).

Embora de acordo que as NDEs oferecem alguma base para a crença em vida após a morte, eu não estou convencido que as evidências das NDEs oferecem “alguma evidência para apoiar a crença na imortalidade da alma.” Mesmo se as experiências forem de uma alma desencarnada próxima do momento da morte, isso não implica que a alma vida para sempre após a morte. No máximo, tal evidência apoiaria a visão que existe algum tipo de experiência independente do corpo após a morte. Se a NDE é uma experiência de vida eterna não parece ser uma questão que possa ser respondida pela pesquisa de experiência de quase-morte. Ainda assim, se a evidência oferece alguma base para a crença ou numa experiência independente do corpo ou algum tipo de vida após a morte, tal evidência por si só seria de considerável importância, pois ofereceria um desafio significativo às interpretações fisicalistas contemporâneas do ser humano.

Outro escritor que acredita que NDEs fornecem alguma evidência para vida após a morte é Becker (1993, 1995) que pesquisou diferentes tipos de experiências paranormais, incluindo hautings, aparições, OBEs, visões no leito-de-morte, e NDEs. Em sua discussão de NDEs, atacou a posição que, porque os NDErs são revividos, eles não podiam ter estado mortos, chamando essa posição “petição de princípio enganador, porque assume-se como um fato a premissa que ninguém jamais revive da verdadeira morte, o que é precisamente o cerne da questão” (Becker, 1993, p. 93). Ele afirmou que se a morte é definida “em termos de atividade cerebral, e alguém não tem atividade cerebral mas mais tarde relata experiências durante esse período, nós temos prova que a experiência consciente é possível após a morte, ao menos temporariamente” (1993, p. 97). (Esta é uma alegação problemática, porque parte do conceito de morte inclui a noção de irreversibilidade, mas eu não argumentarei por essa posição aqui).

Becker então atacou as alegações reducionistas que, desde que NDEs se assemelham a disfunções cerebrais, elas devem ser “exaustivamente descritas por elas” (p. 99), uma asserção que, Becker escreveu, não se segue. Primeiro, experiências com drogas, OBES, ou experiências devidas a um mal funcionamento do cérebro podem ainda abrir o indivíduo a um outro mundo. Segundo, existem diferenças entre experiências induzidas por drogas e NDEs; por exemplo, muito mais NDErs (mais de 80 por cento) “tinham visões de parentes e amigos mortos” (p. 104), mas somente cerca de 20 por cento daqueles que tiveram experiências induzidas por drogas o fizeram. Becker atacou algumas outras explicações reducionistas de NDEs e sustentou que NDEs bem como as “alegadas memórias de vidas passadas, aparições e OBEs, e NDEs com visões paranormais” são melhor explicadas pela teoria sobrevivencialista em que o indivíduo sobrevive à morte do corpo.

Outra geralmente positiva, embora cautelosa, análise do valor evidencial das NDEs é encontrada em um artigo por Cook, Greyson, Stevenson (1998). Eles acreditam que três características de NDE podem oferecer “evidência convergente para sustentar a hipótese da sobrevivência”: “atividades mentais nítidas, a experiência de ver o corpo físico de uma posição diferente no espaço, e percepções paranormais” (p. 377). “Atividade mental nítida” se refere a um aumento na percepção que os NDErs experimentam em um período em que não deveriam estar tendo qualquer percepção absolutamente, muito menos uma aumentada. A evidência de um aumento na percepção combinada com “diminuição do funcionamento fisiológico sugere ao menos que a consciência poderia não ser tão dependente dos processos fisiológicos como a maioria dos cientistas hoje em dia supõem” (p. 379). De acordo com estes autores, embora similaridades entre as culturas com relação às NDEs possam ser devidas a processos fisiológicos ou psicológicos comuns, atividade mental nítida durante uma NDE oferece ao menos alguma evidência para a habilidade da mente funcionar independente do corpo.

Segundo, há um sentido que os NDErs têm de estarem fora do corpo e vê-lo e vê-lo de uma posição diferente do espaço. Claro que existem múltiplas explicações alternativas para a hipótese de que o indivíduo realmente está fora do corpo, pois este é um fenômeno subjetivo. Pesquisa atual sobre OBEs, incluindo aquelas em sujeitos que não estão perto da morte, não provou que um indivíduo experimentando uma OBE pode ver objetos a distância. Novamente, Cook, Greyson e Stevenson (1998) sugerem que o fenômeno OBE na NDE oferece alguma evidência para a hipótese de sobrevivência, mas a evidência permanece inconclusiva.

A mais impressionante evidência para a hipótese de sobrevivência, de acordo com estes autores, vem das percepções paranormais, nas quais “as pessoas dizem perceber eventos que ocorreram além do alcance normal dos sentidos físicos, eventos que não puderam ter sido percebidos normalmente ainda se estas pessoas tivessem estado conscientes” (p. 381). Cook, Greyson e Stevenson exploraram vários casos ilustrativos, alguns dos quais extraídos da literatura sobre NDEs e outros de seus próprios arquivos. Embora os casos envolvam percepções aparentemente verídicas dos NDErs, alguns deles foram baseados em relatos de experiências que ocorreram muitos anos antes de serem relatados e escritos. Foi difícil localizar testemunhas e registros médicos em alguns dos casos.

O mais impressionante caso de sua coleção, e o único com os menores problemas com explicações alternativas, é o último que eles discutiram, o de Al Sullivan (pgs. 399-401). Durante uma cirurgia, ele viu seu coração “no que parecia ser uma mesinha de vidro” (p. 399). A coisa mais notável que ele viu foi seu cirurgião “sacudindo seus braços como se tentando voar” (p. 399). Ele contou ao cardiologista assim que foi capaz de falar após a cirurgia. Descobriu-se que o cirurgião cardíaco habitualmente “punha suas palmas em posição horizontal contra seu peito e dava instruções a seus assistentes assinalando-lhes com seus cotovelos” (p. 400). Isso ocorreu antes que ele se lavasse para manter um campo de operação estéril. O cirurgião, embora relutante em discutir a experiência de Sullivan, confirmou que ele tinha esse hábito peculiar. Parece que Sullivan o viu fazer isso enquanto estava com o peito aberto, em vez de antes da cirurgia, pois ele se lembrou de seu peito aberto e dos médicos trabalhando em suas pernas, um detalhe que o surpreendeu. Entretanto, isto não o impede de ter visto o cirurgião aplainar as suas palmas contra o seu peito logo antes da cirurgia, lembrar-se desse detalhe, e combiná-lo com suas experiências de NDE na sua memória. Não obstante, este caso oferece alguma evidência de percepção verídica durante uma NDE.

Os autores concluíram que casos como os que eles descreveram oferecem evidência que não é conclusiva, mas “sugestiva” de sobrevivência. A convergência das três características apresentadas acima é particularmente importante, especialmente a percepção paranormal. Eles concluíram: “Casos verídicos são importantes porque eles são o tipo de caso mais importante que nos permite decidir se as teorias fisiológicas ou psicológicas normais das NDEs (e OBEs) são suficientes” (p. 401). Eles criticaram a posição de Blackmore que a investigação de tais casos seria perda de tempo, e argumentaram que relatos de experiências verídicas deveriam ser investigados. Quanto mais investigação, melhores os relatos. Eles também discutiram experimentos que podem testar percepções verídicas em NDEs, como aqueles envolvendo objetos fora da vista do paciente, e pensam que tais experiências devem ser perseguidas, mesmo que a oposição pelo pessoal de hospital até aqui tenha impedido tais experiências.

Em um artigo mais recente por estes mesmos autores, Kelly (agora usando seu nome de casada), Greyson e Stevenson (2000) pareceram mais impressionados pela evidência oferecida pela NDE. Em seu último artigo, escreveram que a NDE oferece substancial, mas não conclusiva, evidência para a crença que a consciência sobrevive após a morte. Argumentam que enquanto qualquer característica isolada de uma NDE possa ser explicada em outros termos além da vida após a morte, a conjunção das três características torna improváveis explicações alternativas. Estas características são:

processos mentais reforçados quando as funções fisiológicas estão seriamente enfraquecidas; a experiência de estar fora do corpo e ver o que ocorre em volta deste, como que de um lugar mais alto; e a consciência de acontecimentos distantes que seriam inacessíveis aos sentidos comuns da pessoa. (p. 513)

Kelly, Greyson e Stevenson usaram dois casos como exemplo de convergências destas três características: o caso deles Al Sullivan, aludido acima, e o caso da Pam Reynolds de Sabom, que eu irei discutir abaixo. Impressionados com a evidência de ambos os casos, os autores concluíram que tal evidência é “sugestiva da sobrevivência da consciência após a morte” (p.518). Entretanto, eles não vão tão longe quanto Habermas e Moreland, pois eles sustentam que “experiências de quase-morte podem oferecer somente evidência indireta da continuação da consciência após a morte” (p. 518, itálico no original), pela mesma razão familiar que as pessoas que as experimentaram estão somente perto da morte, não mortas de fato. Este sendo o caso, os autores concluíram que “experiências de quase-morte do tipo que descrevemos, juntamente com outros tipos de experiências sugerindo sobrevivência após a morte... oferecem convergente evidência que garante o fato de podermos levar a sério a idéia de que a consciência pode sobreviver à morte” (p. 518).

Argumentarei abaixo que a avaliação mais moderada da evidência por escritores como Becker e Kelly, Greyson e Stevenson está correta: que NDEs são, neste estágio, sugestivas que pode haver experiência consciente após a morte, mas elas não oferecem ainda evidência convincente, exceto para a pessoa que de fato passou pela experiência. Antes de retornar a este tema, eu me voltarei agora às críticas fisicalistas que fortemente negam que NDEs ofereçam mesmo “indicadores” apontando para a crença na vida após a morte.
O Caso Em Que NDEs Não Fornecem Nenhuma Evidência de Sobrevivência

As descrições fisicalistas das NDEs negam que tais experiências ofereçam evidência de forma convincente para a vida após a morte, sustentando com isso que processos fisioquímicos no cérebro são explanações suficientes para o fenômeno. Começando com o trabalho de Russell Noyes (1972; Noyes e Kletti, 1976), que discutiu que o mecanismo por trás das NDEs é a despersonalização, uma reação de estresse psicológico ao perigo iminente, alguns escritores propuseram várias explanações fisicalistas das NDEs. Alguns destes escritores não são fisicalistas num sentido absoluto, pois discutem de uma tradição cristã, mas são fisicalistas quando se trata da sua interpretação da evidência da NDE. Stephen Vicchio (1979, 1980, 1981) concordou com Noyes que NDEs são reações de esforço, mas incluiu argumentos baseados em suas convicções cristãs, escrevendo que se houvesse uma prova da vida após a morte, a crença já não seria uma matéria da fé (Vicchio, 1979). Ele também manteve uma vista estrita de que a vida depois da morte envolverá a ressurreição do corpo, não a existência de uma alma desencarnada após a morte, de modo que a experiência desencarnada é impossível por definição.

Um outro proponente desta posição, Edward Wierenga (1978), apresentou uma posição similar sobre a ressurreição do corpo e apontou, como fêz Vicchio e Noyes, que NDErs estão quase, mas não realmente mortas. Naturalmente, ao contrário de Noyes, que criticou NDEs de uma posição fisicalista, Wierenga e Vicchio não eram materialistas metafísicos. Mas nem todo intérprete cristão das NDEs concorda com as conclusões de Vicchio e de Noyes; mesmo Habermas e Moreland, que como cristãos tradicionais aceitam a idéia da ressurreição corporal, apoiaram a idéia de que NDEs oferecem evidência, de fato forte evidência, para a experiência perceptual em uma alma desencarnada após a morte. Eu sugeriria que Noyes, Vicchio, e Wierenga devessem igualmente estar abertos para a evidência que sugere experiência perceptual fora-do-corpo durante NDEs e que não há nada de errado em alterar a posição metafísica de alguém se a experiência sugere que deve ser alterada.

Em um artigo recente que tem sido influente no debate sobre se as NDEs são diferentes das experiências induzidas por drogas, Karl Jansen (1997) simulou NDEs nos receptores cerebrais que respondem à droga quetamina. Jansen foi claramente hostil à interpretação sobrevivencialista das NDEs: “NDEs não são evidência para a vida após a morte em terrenos lógicos simples: a morte é definida como o final irreversível e extremo” (p. 5). Ele também claramente aceitou um naturalismo filosófico, identificando o ponto de vista científico com a negação de que uma alma pudesse surgir do corpo com qualquer tipo de experiência sensória. Jansen apontou que a administração de quetamina a sujeitos produz experiências similares às NDEs, incluindo a experiência do túnel, visão de uma luz e experimentação de um estado divino. Ele argumentou que receptores NMDA, os sítios de ligação bloqueados pela quetamina no córtex cerebral, podem desempenhar um papel na NDE, no qual substâncias semelhantes à quetamina produzidas pelo corpo pudessem bloquear estes mesmos receptores durante o período estressante próximo à morte, resultando nas percepções associadas às NDEs.

Por mais impressionantes que as analogias às experiências induzidas por drogas podem soar, elas não estão livres de problemas. Primeiro, só porque experiências induzidas por drogas são similares a algumas das experiências associadas às NDEs, isso não implica que elas são os mesmos tipos de experiências das NDEs. Ninguém negaria que experiências de túnel ou avistamento de uma luz brilhante pudessem ocorrer em contextos outros além da NDE, incluindo alucinações ou experiências induzidas por drogas. Ainda pode ser o caso de que existam fatores das NDEs que difiram em aspectos importantes das alucinações ou das experiências induzidas por drogas. Fenwick (1997), por exemplo, discutiu que em experiências induzidas pela quetamina falta a qualidade noética encontrada em NDEs: muitas pessoas sob influência da quetamina não acreditaram que suas experiências fossem eventos reais, em grande contraste com a forte qualidade noética da NDE. Fenwick também argumentou que um dos fenômenos para os quais Jansen se referiu, acessos do lobo temporal, tende a produzir experiências a esmo e desorganizadas, em contraste com a clara visão de muitas NDEs. Ele corretamente apontou que Jansen havia assumido que um ponto de vista científico sobre a NDE implicaria numa causa baseada no cérebro, mas existem explanações alternativas que poderiam funcionar melhor, mas que Jansen não considerou.

Segundo, mesmo se NDEs ocorressem ao menos em parte devido a mudanças na fisiologia cerebral, isso não implicaria que apenas mudanças na fisiologia cerebral são a causa das NDEs: poderia haver outros paradigmas explanatórios que complementem ou mesmo vão além do paradigma da fisiologia cerebral, sem renegar sua importância. Isso ainda seria verdadeiro mesmo se mudanças na fisiologia cerebral relacionadas às NDEs sejam similares às mudanças que ocorrem sob a influência de drogas psicotrópicas. Um bom exemplo da amplitude para múltiplos paradigmas explanatórios é encontrado no trabalho de Morse, David Venecia e Jerrold Milstein (1989), que argumentaram por um modelo explanatório neurofisiológico para NDEs, no qual “o núcleo da NDE é geneticamente impresso e disparado por mecanismos serotoninérgicos”. Mas esses autores não limitam a explicação da NDE a níveis de serotonina, ao contrário, eles sugerem que enquanto a área no cérebro associada com NDEs possa produzir OBEs como uma resposta ao estresse, “é como se tal área representasse a sede da alma, a área de nosso cérebro que serve como um gatilho para a liberação da alma na morte”.

É claro que o fisicalista poderia apelar para a navalha de Occam e argumentar que um apelo a uma alma multiplicaria explanações sem razão adequada. Mas poderia também ser argumentado que o fisicalista está dogmaticamente apegado a um único paradigma explanatório sem estar aberto a outros; parece que o debate está num impasse. Esta é uma razão pela qual os relatos de percepções verídicas durante NDEs são tão importantes. Se pudesse ser mostrado que certas percepções durante NDEs não são capazes de ser explicadas sem percepções externas do corpo, então este impasse acabaria e as NDEs seriam evidências de que a alma pode ter percepções externas ao corpo próximo da morte, um passo importante no caso por algum tipo de existência da alma após a morte.

Dentre as mais sofisticadas e poderosas interpretações fiscalistas da evidência da NDE, são encontradas aquelas defendem que as NDEs ocorrem devido a mudanças fisiológicas próximas da morte, tais como anoxia cerebral. Um bom exemplo é o modelo de NDE de Juan Saavedra-Aguilar e Juan Gómez-Jeria “baseado em disfunção do lobo temporal, hipoxia/isquemia, estresse e desequilíbrio de neuropeptídeos/neurotransmissores” (1989, p. 205). Embora estes autores não descartem outros modelos para explicar as NDEs, eles eram claramente simpáticos ao campo fiscalista. Outro crítico da hipótese sobrevivencialista, embora não um completo cético sobre NDEs oferecendo evidência de sobrevivência é Krishnan (1985). Como Noyers, Krishnan acredita que pelo menos algumas NDEs são provavelmente “mecanismos biológicos que ajudam o experimentador a sobreviver” (1985, p.21). Conforme mencionado acima, Krishnan é interessado em se a OBE é evidência de sobrevivência à morte. Ele estava impressionado pelas interpretações reducionistas padrão das OBEs em que “qualquer informação verídica que o sujeito relate após o episódio pode ser baseada em memórias de tal forma que o experimentador visualiza esta informação numa maneira vívida, mas não a enxerga realmente” (p.22).

Krishnan referiu-se à pesquisa de Georg Von Bekesy (1963, 1967), que descobriu que vibradores instalados em um antebraço causaram uma percepção pontual, mas quando eram instalados em ambos os antebraços “as percepções pontuais subitamente saltam para o espaço entre eles e o sujeito sente que a percepção do estímulo está ocorrendo distante da superfície do receptor” (Krishnan, 1985, p. 24). Krishnan fez uma analogia às OBEs, discutindo que elas podem ser similares a más percepções de localização causadas por um mecanismo cerebral parecido. Sensações como a OBE podem ocorrer numa epilepsia do lobo temporal também.

Krishnan também discutiu contra OBEs sendo experiências independentes do corpo notando suas similaridades com nossos modos comuns de consciência. Se a OBE é realmente independente dos órgãos sensoriais do corpo, então por que experimentadores não podem perceber “várias formas de energia tais como raios X, ultrassom, raios gama, entre outras” (p.24)? A limitação da percepção OBE a essas formas de energia que nós normalmente experimentamos sugeriria que os sujeitos não estão realmente fora do corpo. Krishnan apontou que no momento em que estava escrevendo (1985), não havia um caso de cegos congênitos tendo uma OBE, mas ele também alegou que mesmo que houvesse, nossa limitação de conhecimento da visão iria prevenir-nos de usar tais experiências como um suporte para interpretações sobrevivencialistas das NDEs. Krishnan também se referiu à relatividade cultural das NDEs e explorou várias interpretações psicológicas e fisiológicas das NDEs, tais como privação sensorial, percepção extra-sensorial e emoções protetoras, as quais pensou ser mais convincentes que a interpretação sobrevivencialista.

Nem todos os críticos da evidência da NDE para a sobrevivência são desejosos de reduzir a NDE a processos meramente fisiológicos no corpo moribundo. Robert Kastenbaun (1996), por exemplo, como outros críticos das NDEs como suporte para a sobrevivência, observou que NDEs ocorrem próximas à morte, não após a morte. Ele também discutiu vários outros problemas com a evidência da NDE: por que mais pessoas próximas da morte não relatam NDEs, por que alguns sujeitos ficam assustados e outros serenos, por que alguns que não estavam próximos da morte têm experiências similares às NDEs e por que indivíduos muito próximos da morte podem realmente ser “menos prováveis de reportar uma NDE que aqueles que estavam menos comprometidos”(p. 261)? Mas Kastenbaun não é um reducionista, no sentido que acredita que uma explicação fiscalista das NDEs esgote seu valor ou significado. Mais ainda, ele apóia uma abordagem fenomenológica para NDEs, enfocando na experiência como um todo e seu valor funcional. Ainda, ele permanece cético no tocante às NDEs oferecerem evidência de vida após a morte.

Os críticos mencionados até então fizeram algumas transgressões significantes contra a força do caso da NDE pela sobrevivência. Contudo, hipóteses fiscalistas podem ser recuadas por estudos que tentem correlacionar NDEs com fatores fisiológicos propostos por seus críticos. A lucidez das NDEs oposta às experiências com as quais críticos a comparam, tais como experiências induzidas por drogas, anóxicas ou alucinatórias, devem ser consideradas (Sabom, 1998). Além disso, tais explanações fiscalistas devem rivalizar com a evidência pela percepção verídica durante NDEs (Sabom, 1982, 1998), evidência a qual, no mínimo, jogaria dúvidas sobre a explanação fiscalista da evidência da NDE. Uma explanação fiscalista não seria mantida dogmaticamente com a base de uma prévia visão metafísica do mundo que não seja ameaçável a mudanças de evidência empírica. Assim, assegurar que a evidência empírica pode apenas implicar numa interpretação fiscalista é simplesmente aplicar um raciocínio circular. E embora Kastenbaum não seja contrário ao estudo científico da NDE, ele preferiu uma abordagem fenomenológica às NDEs e pareceu mais interessado naquela abordagem do que na exploração da evidência da NDE para a vida após a morte.

Mas a questão da vida depois da morte é a mais profunda levantada pelas NDEs, se elas oferecem considerável evidência para a sobrevivência à morte, tal evidência poderia sacudir profundamente nossa visão da realidade como um todo. Tão interessante e útil quanto uma abordagem fenomenológica para as NDEs é, especialmente em seu não-reducionismo, que ignora importantes questões metafísicas, tais como vida após a morte, que deveria ser explorada. Quanto à alegação de Kastenbaum e outros de que os experimentadores não estavam realmente mortos porque a morte é por definição irreversível, isso eu concedo, mas rejeito que isto torne a evidência trazida pela NDE irrelevante na questão da vida após a morte. A quarta linha de evidência de Habermas e Moreland, de experimentadores que tiveram encontros com pessoas que eles conheceram em vida, mas que não sabiam estar mortas, é claramente relevante para a hipótese do pós-vida.

Uma dos mais profundos e cuidadosos críticos que discutiu a interpretação subrevivencialista das NDEs foi Blackmore (1993). A despeito de suas claras pressuposições fiscalistas, Blackmore foi bastante respeitosa do fenômeno NDE, apoiando que tais experiências podem ter grande valor psicológico e podem mesmo desempenhar um papel saudável e transformador na vida do indivíduo. Contudo, ela não acreditava que elas (NDEs) fornecessem evidência forte para a vida depois da morte, pois todo o fenômeno reportado associado com as NDEs pode ser explicado em termos de processos fisiológicos relacionados à ausência de oxigênio no cérebro.

Em seu caso detalhado e técnico, Blackmore focou em especificidades de como mudanças na fisiologia cerebral poderiam causar as experiências típicas associadas com NDEs, tais como paz, separação corporal, mover-se através de um túnel e ver parentes mortos ou figuras religiosas. Sua crítica detalhada do estudo de Sabom é importante, uma vez que a crença de Sabom de que seus pacientes apresentaram informações acuradas sobre suas ressuscitações, as quais eles não poderiam ter sabido de outro modo, é a peça chave na cadeia de argumentos apresentados por aqueles que acreditam que NDEs oferecem evidência real para a vida após a morte. Blackmore discutiu que os detalhes que os pacientes de Sabom apresentaram concernentes às suas ressurreições poderiam ter sido adquiridos de tantas maneiras que não implicam na separação do self do corpo ou qualquer outra forma de vida após a morte. Ela escreveu que o conhecimento prévio e expectativas das ressurreições cardiopulmonares (CPR) desempenharam um papel na criação de “memórias” da experiência. Sem os detalhes da ressurreição nos registros médicos, os quais freqüentemente deixam de fora detalhes específicos dos procedimentos utilizados, não há forma acurada de checar um relato de um paciente para determinar se é preciso. Também, alguns experimentadores foram entrevistados anos após as suas ressurreições e este tempo é mais que suficiente para que estes pacientes aprendam sobre especificidades da CPR, especialmente quando eles foram ressuscitados e poderiam estar interessados em aprender sobre os procedimentos utilizados.

Blackmore também criticou os grupos controle de pacientes de Sabom que não haviam experimentado as NDEs: como ela corretamente apontou, muitos daqueles pacientes não haviam sofrido uma parada cardíaca e ressurreição e, portanto seriam menos prováveis de reconstruir o evento de detalhes ouvidos por acaso durante a ressurreição. Indivíduos tendem a formar imagens visuais das coisas que escutam; quando muitas pessoas ouvem uma história, elas formam imagens mentais concretas dos detalhes. Blackmore deu o exemplo da história de um gato que passa em frente de pessoas andando na floresta; indivíduos que ouviram a história formaram imagens mentais concretas de um gato particular, de cor e tamanho particulares e de uma aparência específica da floresta e do céu. A mesma coisa poderia ter acontecido nas NDEs: aqueles que são ressuscitados podem ouvir coisas durante ou após a ressurreição e então construir imagens mentais dos detalhes, os quais são então “relembrados”. Blackmore notou que em casos de “visão distante” que parecem prevenir tal reconstrução, os relatos do experimentador são comumente inespecíficos o bastante para garantir a crença em sua experiência visual, tais como um garoto que afirmou que seus dois avôs falecidos tinham cabelos marrom e negro. Mas como Blackmore observou, marrom e preto são descrições muito óbvias de uma grande porção de cores de cabelo.

Ela também alegou que os relatos aparentemente impressionantes de pacientes cegos reportando NDEs não são tão impressionantes quanto aparentam; na época em que ela escreveu (1993), não havia nenhum caso confirmado de experiências fora-do-corpo visuais em pacientes congenitamente cegos. Aqueles não cegos de nascença podem construir imagens mentais do que eles ouviram, similar às pessoas com visão normal. (Houve, desde então, relatos de indivíduos cegos de nascença que relataram percepções visuais em NDEs [Ring e Cooper, 1997].) Blackmore concluiu que, já que toda a evidência proposta para suportar a interpretação fora-do-corpo das NDEs é inadequada e, já que há adequada explanação fisiológica para o fenômeno NDE na anoxia cerebral, ela “não vê razão para adotar a hipótese sobrevivencialista”(p. 263).

Blackmore montou poderosos argumentos contra a posição de que NDEs podem ser usadas para fazer um caso forte para a vida após a morte. Isto não significa, contudo, que nenhum caso poderia ser feito. Se o grupo controle de Sabom tivesse consistido apenas de pacientes que experimentaram parada cardíaca sem uma NDE, e se os NDErs tivessem conhecimento específico e detalhado da CPR que o grupo controle não tinha, isto forneceria evidência considerável para a posição de que os NDERs adquiriram suas informações da própria NDE. Se houvesse casos de NDEs nas quais pacientes recordassem informações visuais que pudesse apenas ser aprendida estando-se realmente fora do corpo, tal como a recordação de detalhes específicos dos trajes vestidos pela equipe do hospital, detalhes específicos da ressurreição (incluindo a ordem dos eventos), ou detalhes do quarto onde a ressurreição ocorreu que só poderiam ter sido conhecidos estando-se realmente lá, então isto apoiaria a interpretação fora-do-corpo das NDEs, que poderia então ser utilizada como evidência de uma “minimalista vida após a morte.” Se os relatos dos NDERs em que vêem aqueles que eles não sabiam estarem mortos revelarem-se verdadeiros com os fatos do caso, então isto pareceria marcar alguma evidência da continuação da vida além da morte biológica. Assim, é possível que NDEs sejam usadas para fazer um forte caso por uma “minimalista” vida após a morte, mas tal evidência é ausente no momento. Ao final deste artigo, eu discutirei um recente experimento que oferece uma direção promissora nesta área de pesquisa.

O Caso Em Que NDEs Fornecem Evidência Forte de Sobrevivência para o Experienciador

Quanto suporte a atual evidência de NDE realmente empresta à vida após a morte? Para muitos de nós, a resposta é “alguma evidência que deveria ser tomada seriamente e posteriormente pesquisada, mas não evidência conclusiva.” É muito ambíguo sustentar a posição de Habermas e Moreland de que NDEs oferecem forte evidência por uma minimalista vida após a morte. Por outro lado, Blackmore e outros fiscalistas tendem a descartar a noção de que as NDEs poderiam oferecer evidência em favor da vida após a morte. Eu sugiro que a verdade é um meio caminho entre os extremos: contrariamente à posição fiscalista, NDEs oferecem alguma evidência para a sobrevivência à morte que deveria ser tomada seriamente e, contrariamente à posição de Habermas e Moreland, não é ainda evidência substancial ou convincente, pelo menos para muitos de nós.

Contudo, existe um grupo de pessoas que tem justificativa racional em considerar NDEs como evidência forte, ou mesmo convincente, de vida após a morte. Eu discuto que NDEs podem oferecer evidência razoável para a vida após a morte para o indivíduo NDEr. Agora alguém poderia alegar que isto é absurdo: como pode um grupo de pessoas racionalmente tomar NDEs como evidência forte de vida após a morte, enquanto o resto de nós não estamos tão racionalmente justificados? Na realidade, tais situações epistêmicas são muito comuns, nas quais algumas pessoas são justificadas em tomar certa evidência como convincente para uma certa conclusão, enquanto outras pessoas não são tão justificadas. O exemplo seguinte torna isso claro. Se eu vejo um urso na floresta numa área em que se sabe que ursos não existem, dada uma visão normal, dia claro e boa saúde, eu sou racional ao aceitar a experiência que um urso está na floresta como evidência convincente, não constituindo forte ou convincente evidência para os outros, especialmente que neste cenário nenhum urso era sabido habitar a floresta. Outras pessoas precisariam de evidência adicional para concluir racionalmente que existe um urso na floresta, tais como relatos verificados de mais avistamentos de urso ou trilhas de urso verificadas.

Eu acredito que a evidência da NDE para a vida após a morte é uma situação similar, mas é preciso ser cuidadoso aqui. NDEs tem uma “qualidade noética”; freqüentemente, os experimentadores acreditam sem qualquer dúvida que eles se separaram do corpo e experimentaram a vida após a morte. Mas uma convicção pessoal absoluta de que ele ou ela experimentou um evento não significa que o alegado evento foi realmente a causa da experiência. Experiência, mesmo sensória, requer interpretação, experiência é experimentar como. Por exemplo, eu tenho uma fotografia que aparentemente mostra árvores na floresta sob um céu azul. Quase todo o indivíduo que vê a fotografia está absolutamente certo de que aquilo é o que ele ou ela está experimentando. Após alimentar essa certeza, eu mostro a fotografia aos meus estudantes de filosofia de caneca para baixo, pois na verdade é um reflexo das águas e do céu nas águas claras. A qualidade noética das experiências perceptuais dos estudantes, sua certeza absoluta, de que eles estavam observando uma fotografia de árvores e do céu e não uma fotografia de um reflexo na água não tornaram sua percepção correta (Proudfoot, 1996). O mesmo é verdade para pessoas que têm NDEs. Suas absolutas certezas de que a experiência foi uma de sua alma desencarnada do corpo, ao lado da sensação de estar morto, não significa que eles literalmente experimentaram estas coisas.

Mas há mais a ser dito. Suponha que um paciente sofra uma parada cardíaca, tenha uma NDE e fale ao médico sobre isso logo em seguida (e não anos depois, como em alguns casos). O indivíduo recorda em detalhes o processo de ressurreição, incluindo quem estava presente, as roupas que estavam vestindo e a planta específica do quarto. Suponha que todos os detalhes estejam corretos e seja confirmado pelo médico e outros membros da equipe envolvidos na ressurreição. Vamos supor em seguida que, durante a NDE, o paciente veja seus pais e irmão e fique surpreso em vê-los, eles dizendo ao paciente que eles estão mortos agora e em outro mundo. Depois, após a ressurreição, o paciente descobre que seus pai e irmão foram mortos num acidente de trânsito horas antes da parada cardíaca e que o paciente não havia sido informado disso. Justificaria a esse paciente acreditar que a NDE oferece forte evidência de vida após a morte? Eu penso que temos que responder que para tal paciente seria racional acreditar que a NDE ofereceu forte evidência da vida após a morte – para esse indivíduo. Em si, não ofereceria forte evidência para qualquer coisa; um relato de um incidente se tornaria outro caso anedótico, embora se cuidadosamente estudado poderia ser combinado com outros casos num estudo de larga escala das NDEs.

Existe, de fato, um caso que, embora não tão impressionante quanto o exemplo hipotético mencionado, permanece bastante notável: o de Pam Reynolds, uma mulher de 35 anos com um aneurisma gigante da artéria basilar (Sabom, 1998). Na tentativa de remover o aneurisma de forma segura, os cirurgiões realizaram um procedimento cirúrgico incrível: “Esta operação... requisitava que sua temperatura corporal fosse baixada a 60º F, seus batimentos cardíacos e respiração parassem, suas ondas cerebrais ficassem planas e o sangue fisse drenado de sua cabeça” (Sabom, 1998, p. 37) Durante o curso da cirurgia, Reynolds teve uma NDE muito detalhada, de início autoscópica e depois transcendental. O que é mais impressionante é o quão boa é a sua descrição da experiência correlacionada com os estágios da sua cirurgia. Quando sua cirurgia iniciou-se e seu crânio estava sendo aberto, ela sentiu-se puxada de seu corpo através de sua cabeça e, como muitos NDErs, sentiu que suas consciência e visão estavam mais afiadas do que ela nunca havia experimentado. Ela acuradamente descreveu sua cabeça durante a tricotomia e o instrumento usado para abrir seu crânio. Durante a cirurgia, devido ao pequeno tamanho de suas artérias e veias femorais direitas, as análogas do lado esquerdo foram conectadas com a máquina pulmão-coração. Uma cirurgiã cardíaca tomou essa decisão e Reynolds recordou de ter ouvido uma voz feminina dizendo que suas veias e artérias eram pequenas. É importante salientar que durante esta parte da cirurgia, o coração de Reynolds estava ainda batendo e ela não estava clinicamente morta.

A próxima parte da sua cirurgia envolveu morte clínica induzida. Seu corpo foi resfriado e, como resultado, seu coração veio a uma fibrilação ventricular, eventualmente parando completamente por uma injeçção de cloreto de potássio. Seu EEG ficou plano e mesmo a atividade cerebral, testada por uma resposta a cliques emitidos por fones em seus ouvidos, não mais eram detectados. Sua temperatura corporal alcançou os 60º F requeridos para que a cirurgia tomasse lugar, seu sangue foi drenado de seu corpo e o aneurisma foi removido. Seu sangue foi devolvido ao corpo e a sua temperatura elevou. A atividade cerebral retornou, mostrada por uma resposta quando os fones em seus ouvidos clicaram, seguido por uma atividade cerebral mais alta detectada pelo EEG. Seu coração começou a fibrilar e retornou ao ritmo da cavidade normal após dois choques com um desfibrilador. Sua cirurgia foi um sucesso.

Foi durante este tempo que Reynolds teve a porção transcendental de sua NDE. Já que esta não envolveu uma experiência do teatro de operações, não é fácil correlacionar sua experiência com pontos específicos em sua cirurgia. Em muitas formas, sua experiência foi típica de experiências transcendentais: ela se sentiu “puxada”, embora ela dissesse que sua sensação “não foi corporal, física”, viajando através de algo que “era como um túnel mas não era um túnel”(p. 44) e ela reportou um elevado sentido de audição. Ao final do túnel havia uma luz brilhante e ela viu seres de luz, os quais incluíam sua avó e outros parentes falecidos. Eles não permitiram que ela fosse adiante, e embora ela quisesse “entrar na luz”, ela percebeu que tinha uma família para sustentar e quis voltar também. Uma parte interessante de sua experiência foi quando os parentes falecidos estavam “alimentando-a” com algo descrito como “luminoso”. Quando foi a hora de voltar ao seu corpo, seu tio conduziu-a, mesmo embora ela não quisesse ir. Ela mencionou que viu “a coisa, meu corpo”. Seu tio “comunicou” a ela que voltar ao corpo era “como pular numa piscina”. Ela ainda não quis ir, mas eventualmente seu tio a empurrou em seu corpo “doído”. Ela descreveu com precisão a música que tocava próxima ao fim da sua cirurgia quando ela estava sendo suturada (pgs. 44-47).

Sabom havia achado anteriormente que NDEs são mais prováveis quando a pessoa está cada vez mais perto da morte e ele reconheceu que muitos destes pacientes estavam clinicamente mortos, mas não realmente mortos. O caso Reynolds o fez reconsideram sua crença de que NDE não ocorrem após a morte real. Reynolds atingiu todos os critérios para morte baseados em testes clínicos, incluindo um EEG plano, ausência de potenciais auditivos evocados e carência de circulação sanguínea no cérebro. (Para aqueles que não aceitam o critério da morte cerebral e preferem o critério circulatório-repiratório, se poderia observar que não havia circulação do sangue e, de fato, nenhum sangue em seu corpo durante a porção hipotérmica de sua cirurgia.) Foi durante esta parte de sua cirurgia que Reynolds teve uma NDE profunda que alcançou 27 pontos na escala de NDE de Greyson (1983), na qual o escore médio para NDEs é 15, sendo a mais profunda em todos os sujeitos do estudo de NDEs de Sabom. Sabom ainda não foi tão longe a ponto de dizer que ela estava morta, insistindo (eu penso que corretamente) que médicos não podem trazer pessoas, literalmente, da morte. Ele também observou que muitas pessoas que são dadas com morte cerebral retém funções cerebrais hipotalâmicas entre outras, sendo que é possível que alguma atividade estivesse ainda acontecendo no cérebro de Reynolds. No fim, Sabom sustentou que, consistente com a crença de que a morte é um processo, a NDE é um estado no qual “o espírito ou alma da pessoa está em processo de separação do corpo” (p. 203). Seus estudos de NDEs têm-no convencido de que eles são genuínas experiências espirituais, e não alucinações causadas por drogas ou anoxia.

O caso Reynolds é notável não apenas por sua profundidade e a lembrança acurada de Reynolds de sua cirurgia, mas também pelo nível de correlação entre as descrições de sua experiência e o estado fisiológico que ela estava no momento. Explicações fisicalistas não explicam este caso. Por exemplo, Kelly, Greyson e Stevenson (200) notaram que as experiências de Reynolds (e Al Sullivan; vide acima) não podem ser explicadas em termos de inputs auditivos, porque elas eram claramente visuais em natureza; além disso, as orelhas de Reynolds estavam tapadas durante a cirurgia. Embora não se possa estar totalmente preciso do timing, ela relatou algumas experiências durante a parada cardiopulmonar total e durante uma total falta de função cerebral. Certamente ela está sendo racional ao tomar sua experiência como uma de percepção extra-corpórea e, dada a sua visão dos parentes falecidos de alguma mínima vida após a morte. Para ela, então, a NDE oferece convincente evidência de sobrevivência à morte, e ela está sendo racional em fazê-lo assim. Isso fortalece o caso público para a vida após a morte, mas permanece somente um caso notável. Não oferece, por si mesmo, evidência convincente para vida após a morte.

Isso não significa que toda a pessoa que passa por uma NDE e a interpreta como evidência de vida após a morte está sendo racional em fazê-lo. Podem haver fatores fisiológicos óbvios envolvidos em algumas NDEs: algumas podem ser somente causadas por anoxia cerebral ou por reações a drogas. As próprias experiências podem não coerir: divagações, relatos de NDEs semelhantes a sonhos seriam duvidosos. As experiências podem não se encaixar na realidade: se alguém lembra uma reanimação que não aconteceu, ou enquanto estava sendo reanimado teve uma visão de um parente “morto” que se descobriu estar muito vivo, é improvável que a experiência fosse uma da vida futura. Se a experiência é internamente coerente, e a recordação da experiência sensória não pode ser explicada facilmente sem trazer em cena alguma espécie de percepção fora-do-corpo, então o NDEr seria racional em sustentar ao menos a uma interpretação dualística da experiência, embora não necessariamente uma crença em vida depois da morte biológica. Se a NDE inclui experiências daqueles que estão biologicamente mortos, e tais experiências facilmente não são explicadas sem propor alguma comunicação com esses indivíduos que realmente morreram, o NDEr é racional em aceitar algum tipo de experiência depois da morte biológica. Pois dizer que tais posições são sempre irracionais é descartar por definição a possibilidade de experiência desencarnada depois da morte; Blackmore pareceu fortemente inclinada a fazer isto em sua crítica da interpretação sobrevivencialista das NDEs. Mas se alguém não descarta por definição tais experiências depois da morte, então o indivíduo NDEr, em alguns casos, é razoável em tomar sua experiência como sendo uma evidência forte para a vida depois da morte.

Se um caso forte pode ser desenvolvido para vida depois da morte, a partir das NDEs, para o resto de nós, resta a ser visto. O que é necessário são pesquisas ao longo das linhas sugeridas por Badham e Badham, estudos que testem a evidência de percepção verídica durante as NDEs, e em que as experiências dos sujeitos sejam cuidadosamente coordenadas com seu estado fisiológico no momento da parada cardíaca. Os dois estudos de Sabom (1982, 1998) correlacionaram o estado fisiológico dos sujeitos com os momentos de suas NDEs, e ele explorou a possibilidade de percepção verídica correlacionando as experiências informadas dos pacientes durante uma NDE autoscópica com seus registros médicos.

Outro estudo recente, embora relativamente pequeno, poderia ser usado como modelo para mais pesquisa nesta área. Parnia, Waller, Yeates, e Fenwick (2001) estudaram um grupo de 63 sobreviventes à parada cardíaca que não mostraram sinais de confusão, para saber se eles tinham quaisquer memórias durante a parada, avaliando seus relatos baseados na Escala de NDE de Greyson. Eles documentaram os níveis de oxigênio e dióxido de carbono no sangue, bem como de sódio e potássio, durante o período da parada, e perguntou aos pacientes sobre seu passado religioso e nível de prática religiosa. Para testar as percepções verídicas durante a NDE, “tábuas foram suspensas do teto das divisões antes do início do estudo. Estas tinham várias figuras na superfície encarando o teto que não eram visíveis do chão” (p. 151).

Sete dos 63 pacientes (11 por cento) relataram memórias do momento de suas paradas cardíacas, e quatro destes (6 por cento) tiveram NDEs. Todos os quatro NDErs tiveram um sentido de chegar a uma “borda” ou ponto em que o retorno não era mais possível; três dos quatro relataram ver uma luz brilhante e sentimentos de paz e alegria; dois dos NDERs relataram ver parentes falecidos; e dois relataram um sentimento de sensações aumentadas. Os níveis de oxigênio estavam de fato mais altos nos NDErs do que nos que não passaram pela experiência. Os autores acreditam que tais memórias durante períodos de parada cardíaca em pacientes com saturação normal de oxigênio deveria ao menos encorajar os pesquisadores a considerar as implicações das NDEs para a relação mente-cérebro. Porque nenhuma OBE ocorreu entre os NDErs deste estudo, não houve oportunidade de testar percepções fora-do-corpo verídicas. Ainda assim, esse estudo oferece uma estrutura para outros que possam ser repetidos em outra parte. Como os autores deste estudo concluíram: “Para que uma amostra prospectiva seja coletada para que tanto os aspectos psicológicos (incluindo experiências fora-do-corpo) e fisiológicos das experiências possam ser observados em detalhe, um teste multi-central é preciso” (p. 155). Eu posso somente concordar com esta conclusão e espero que mais estudos apareçam sobre o valor da evidência da NDE para a crença na vida após a morte.

Referências

Badham, P., and Badham, L. (1982) Immortality or extinction? Totowa, NJ: Barnes and Noble.

Becker, C. B. (1993). Paranormal experience and survival of death. Albany, NY: State University of New York Press.

Becker, C. B. (1995). A philosopher’s view of near-death research. Journal of Near-Death Studies, 14, 17–25.

Blackmore, S. (1993). Dying to live: Near-death experiences. Buffalo, NY: Prometheus Books.

Cook, E.W., Greyson, B., and Stevenson, I. (1998). Do any near-death experiences provide evidence for the survival of human personality after death? Relevant features and illustrative case reports. Journal of Scientific Exploration, 12, 377–406.

Fenwick, P. (1997). Is the near-death experience only N-methyl-D-aspartate blocking?
Journal of Near-Death Studies, 16, 43–53.

Greyson, B. (1983). The Near-Death Experience Scale: Construction, reliability, and validity, Journal of Nervous and Mental Disease, 171, 269–275.

Habermas, G. R., and Moreland, J. P. (1992). Immortality: The other side of death. Nashville, TN: Thomas Nelson.

James, W. (1958). The varieties of religious experience. New York, NY: Mentor Books.
(Original work published 1902.)

Jansen, K. L. R. (1997). The ketamine model of the near-death experience: A central role for the N-methyl-D-aspartate receptor. Journal of Near-Death Studies, 16, 5–26.

Kastenbaum, R. (1996). Near-death reports: Evidence for survival of death? In L. W. Bailey and J. Yates (Eds.), The near-death experience: A reader (pp. 247–264). New York, NY: Routledge.

Kelly, E. W., Greyson, B., and Stevenson, I. (2000). Can experiences near death furnish evidence of life after death? Omega, 40, 513–519.

Krishnan, V. (1985). Near-death experiences: Evidence for survival? Anabiosis: The Journal of Near-Death Studies, 5(1), 21–38.

Kübler-Ross, E. (1976, August). When face to face with death [Interview]. Reader’s Digest, pp. 81–84.

Lorimer, D. (1984). Survival? Body, mind and death in the light of psychic experience. London, England: Routledge and Kegan Paul.

McCullagh, P. (1993). Brain dead, brain absent, brain donors: Human subjects or human objects. Chichester, England: Wiley.

Moody, R. A. (1975). Life after life. Covington, GA: Mockingbird Books.

Morse, M., Venecia, D., and Milstein, J. (1989). Near-death experiences: A neurophysiologic explanatory model. Journal of Near-Death Studies, 8, 45–53.

Morse, M., and Perry, P. (1990). Closer to the light: Learning from the near-death experiences of children. New York, NY: Villard.

Noyes, R. (1972). The experience of dying. Psychiatry, 35, 174–184.

Noyes, R., and Kletti, R. (1976). Depersonalization in the face of life-threatening danger: A description. Psychiatry, 39, 19–27.

Owens, J. E., Cook, E. W., and Stevenson, I. (1990). Features of “near-death experience” in relation to whether or not patients were near death. Lancet, 336, 1175–1177.

Parnia, S.,Waller, D. G., Yeates, R., and Fenwick, P. (2001). A qualitative and quantitative study of the incidence, features, and aetiology of near death experiences in cardiac arrest survivors. Resuscitation, 48, 149–156.

Penfield, W., and Rasmussen, T. B. (1950). The cerebral cortex of man. New York, NY: Macmillan.

Proudfoot, W. (1996). Religious experiences as interpretative accounts. In M. Peterson, W. Hasker, B. Reichenbach, and D. Basinger (Eds.), Philosophy of religion: Selected readings (pp. 30–40). New York, NY: Oxford University Press.

Rawlings, M. (1980). Before death comes. Nashville, TN: Thomas Nelson.

Ring, K., and Cooper, S. (1997). Near-death and out-of-body experiences in the blind: A study of eyeless vision. Journal of Near-Death Studies, 16, 101–147.

Saavedra-Aguilar, J. C. and G´omez-Jeria, J. S. (1989). A neurobiological model for neardeath experiences. Journal of Near Death Studies, 7, 205–222.

Sabom, M. (1982). Recollections of death: A medical investigation. New York, NY: Harper and Row.

Sabom, M. (1998). Light and death: One doctor’s fascinating account of near-death experiences. Grand Rapids, MI: Zondervan.

Vicchio, S. J. (1979). Against raising hope of raising the dead: Contra Moody and Kübler-Ross. Essence, 3, 51–67.

Vicchio, S. J. (1980). Moody, suicide, and survival: A critical appraisal. Essence, 4, 69–77.

Vicchio, S. J. (1981). Near-death experiences: Some logical problems and questions for
further study. Anabiosis: The Journal of Near-Death Studies, 1, 66–87.

von Bekesy, G. (1963). Interaction of paired sensory stimuli and conduction in peripheral nerves. Journal of Applied Physiology, 18, 1276–1284.

von Bekesy, G. (1967). Sensory inhibition. Princeton, NJ: Princeton University Press. Wierenga, E. (1978). Proving survival? Reformed Journal, 28, 26–29.

Potts, Michael. The Evidential Value of Near Death Experiences for Belief in Life After Death. Journal-of-Near-Death-Studies. 2002 Sum; Vol 20(4): 233-258.
[1] Michael Potts, Ph.D., é Professor Associado de Philosofia no Methodist College em Fayetteville, NC. Pedidos de impressão devem ser endereçados ao Dr. Potts no Methodist College, 5400 Ramsey Street, Fayetteville, NC 28311-1420; e-mail: mpotts20@hotmail.com.

Neuroplasticidade autodirigida e dualismo

0 comentários

O dualismo forte, como corrente dentro da filosofia da mente, sustenta não só a realidade substancial da mente, mas também que ela tem poder causativo sobre a matéria, circunstância que, se positivada, torna essa posição filosófica uma hipótese científica, pois testável.

Então, se esse dualismo é verdadeiro, devemos encontrar exemplos de atributos estritamente mentalísticos (coisas como pensamentos, cognição, esforço mental, crenças, desejos, etc.) afetando o “mundo físico” conhecido por nossos cinco sentidos.

A evidência de “fenômenos parapsicológicos” (como psicocinese e percepção extra-sensorial), porque mensuráveis, prestam-se, sem sombra de dúvidas, como demonstrações do dualismo (mesmo que haja uma explicação física para a dinâmica desses eventos, o fato é que aqueles elementos imateriais continuariam a ser causas irredutíveis). Felizmente, existem abundantes evidências científicas, além das produzidas pela pesquisa psíquica, que respaldam a tese da eficácia causal da mente, tanto que, desde a década de 70, a causalidade mental ganha consideráveis suportes, principalmente dentro da Psicologia, onde se tornou a posição majoritária.

Curiosamente, uma das evidências mais interessantes a favor do dualismo é o que se convencionou chamar de neuroplasticidade autodirigida, quando o esforço mental dirigido é capaz de produzir mudanças sistemáticas e previsíveis na atividade cerebral (Jeffrey M. Schwartz; Henry P. Stapp; Mario Beauregard, 2004). Para esses pesquisadores, “o ato consciente - de intencionalmente alterar a forma pelo qual uma informação experimental é processada - muda, de modos sistemáticos, os mecanismos cerebrais usados”.

A experiência consiste, primeiro, numa fase de treinamento, na qual o sujeito é ensinado a como distinguir e responder, diferentemente, duas instruções dadas, enquanto ele observa imagens visuais emocionalmente perturbadoras: ‘observe' (significa 'estar passivamente ciente sobre quaisquer sentimentos produzidos, e não tentar alterá-los') ou ‘re-avalie' (significa ‘reinterpretar ativamente o conteúdo de forma que não mais se produza uma segunda resposta negativa’). Segundo, os sujeitos executam estas ações mentais durante a aquisição de informações pelo cérebro. Os estímulos visuais, quando passivamente observados, ativam áreas do cérebro límbico, e quando ativamente reavaliados, ativam regiões cerebrais pré-frontais.

Os autores observam que existe “um número crescente de estudos na literatura de neuro-imagem que significativamente sustenta a tese que, com treinamento e esforço apropriados, as pessoas podem sistematicamente alterar o circuito neural associado a uma variedade de estados mentais e físicos que são claramente patológicos”. Em outras palavras: conteúdos propriamente considerados mentais (como pensamentos e crenças) modificam padrões cerebrais!!! Bem, isso a um só tempo torna bem improvável a hipótese de que todos os aspectos da resposta emocional são passivamente determinados por mecanismos neurobiológicos, uma vez que *treinamento* e *esforço* (que são aqui claramente os fatores causais básicos) sobre modos específicos de se pensar, efetivamente, alteram a dinâmica cerebral: pois modificam estruturalmente a resposta cerebral padrão a um estímulo externo. Por exemplo, na década de 90, - citam os autores - um trabalho sobre pacientes com desordem compulsiva obsessiva demonstrou mudanças significativas no metabolismo nos núcleos caudados e nas relações funcionais do circuito córtex orbitofrontal–striatum–tálamo em pacientes que responderam a um tratamento psicológico usando re-enquadramento cognitivo e re-focalização da atenção como aspectos chave da intervenção terapêutica (para revisão, veja Schwartz & Begley, 2002). Mais recentemente, o trabalho de Beauregard e colegas (Paquette et al. 2003) demonstrou mudanças sistemáticas no córtex dorsolateral pré-frontal e giro parahippocampal depois de terapia cognitivo-comportamental para fobia de aranhas, com alterações cerebrais significativamente relacionadas tanto às medidas objetivas como aos relatórios subjetivos de medo e aversão.

E deixam claro: existem agora numerosos relatórios sobre os efeitos de regulação autodirigida de resposta emocional, via re-enquadramento cognitivo e mecanismos de re-contextualização da atenção, sobre a função cerebral (por ex., Schwartz et al. 1996; Beauregard et al. 2001; Ochsner et al. 2002; Le 'vesque et al. 2003; Paquette et al. 2003). E mais. Destacam: a área cerebral geralmente ativada, em todos os estudos feitos até agora sobre regulação autodirigida da resposta emocional, é o córtex pré-frontal, uma região cortical também ativada em estudos sobre atividade mental voluntária e correlatos cerebrais, particularmente, os que investigam a auto-iniciativa.

Enfim, tais estudos, além da importância clínica, repercutem sobre a ontologia, na medida que constituem indicações claras de que conteúdos não-físicos não só fazem parte da *realidade*, mas também são capazes de afetar a matéria, no caso, o próprio cérebro, ao modificar-se, por treinamento e esforço mental, nossas respostas-cerebrais-padrão a estímulos externos, o que, no fim de tudo, ainda reverbera em prol da filosofia do livre arbítrio.

---------------------------------------------

Quantum physics in neuroscience and psychology: a neurophysical model of mind–brain interaction por Jeffrey M. Schwartz, Henry P. Stapp e Mario Beauregard (Phil. Trans. R. Soc. B doi:10.1098/rstb.2004.1598).